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domingo, 18 de dezembro de 2011

Carta Aberta XXV - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente
Começo esta Carta Aberta, partilhando um e-mail recebido na minha caixa de correio, de um Amigo, cujo nome remeto ao sigilo, para reflexão de Vª Exª. e seus Vereadores.
Caríssimo Zé Morgas
Acabei de ler a Carta Aberta I que enviaste ao presidente da câmara de Penamacor e não podia deixar de te manifestar o meu apreço pela atitude.
Em traços gerais concordo com a esmagadora maioria das tuas observações e sugestões, designadamente o desperdício de dinheiro numa via estruturante que não vai estruturar absolutamente nada, bem como na questão dos incentivos à fixação.
O único ponto em que coloco algumas dúvidas tem a ver com o factor "turismo" e o instrumento "hotel".
Explico: o turismo tem vindo a ser utilizado praticamente por todas as câmaras como uma "grande aposta" e um "poderoso motor" do desenvolvimento sobretudo dos territórios do interior.
Estou cada vez mais convencido que não passa de uma panaceia sobrevalorizada em campanhas eleitorais por quem não tem outras soluções. Não estou com isto a querer dizer que o factor turismo não deva ser considerado, o meu problema é que ele é quase sempre equacionado na perspectiva errada.
Na minha opinião, Penamacor não tem a mínima hipótese de concorrer, em termos de oferta turística, segundo o modelo clássico, com os concelhos limitrofes, muito menos com os do litoral, logo, o modelo que passa pelo hotel, pelo pavilhão de congressos, ou qualquer outra megalomania, acabará sempre por se transformar em mais um mamarracho e disso, como dizes e bem, já lá temos.
Simpatizo muito mais com o modelo que tu afloras quando defendes que o antigo quartel seria muito mais interessante como Pousada do que como amontoado de serviços públicos, que ainda por cima são cada vez mais raros em Penamacor. Esse modelo está mais próximo daquele que eu entendo como mais interessante e que passaria pelo incentivo às pequenas unidades de inicitaiva privada, com gestão familiar em locais com algumas características que favorecessem a atracção de potenciais visitantes,
E aí, sejamos pragmáticos, só a Malcata e a área da Baságueda é que oferece essas caraterísticas.
Com o devido respeito por melhor opinião, fazer um hotel nos castelinhos é um óbvio suicídio para qualquer investidor.
Infelizmente, a CMP já lá enterrrou uns milhares.
Bem, esta discussão é interessantíssima, podia ser alargada à problemática do desenvolvimento dos territórios de baixa densidade, mas poderá ser mais produtiva e agradável com um secreto de porco preto e um tinto do verdadeiro à frente.”
Sr. Presidente
Além do sincero convite para reler a minha Carta Aberta I, pese o facto de saber que as obras em marcha do Hotel lhe devem consumir todo o tempo disponível, deixo-lhe aqui uma ideia para presentear o ”potencial de gente que pode vir a Penamacor” palavras do Vereador António Cabanas ao Jornal Reconquista, oriundas lá da localidade francesa do geminado jardim de Penamacor.
Há que eleger todos, e são muitos, os locais de interesse a visitar, tanto na Vila como em todas as freguesias, A norte, a sul e concelhos limitrofes, Idanha, Sabugal... 
- Miradouros naturais com vistas de rara beleza, Igrejas, Capelas, Conventos, Santuários, Museus, Castelos, Muralhas, Pelourinhos, Talefes, Fontes, Chafarizes, Barragens, Tasquinhas com petiscos típicos e pinga da boa, do melhor que por aí se faz, Baluartes, etc, etc.. e elaborar as respectivas rotas.
Sr. Presidente
Falando dos baluartes de Penamacor, Polé, Arcaz, Reduto, Moreirinha, e em especial do Baluarte da Polé
- Já pensou em classificar a área envolvente do Baluarte da Polé, como de interesse público e adquirir para demolição os edifícios que o envolvem, instalações de uma ex-oficina, casa do Ferrador, antigo posto público de telefone, erguer nesse local o Posto de Turismo do Concelho de Penamacor, e fazer do Baluarte da Polé um ponto inicial de visita e partida para as várias rotas a criar?
- Será necessário transportes, por exemplo, um comboio turístico, com três ou quatro carruagens  e uma "locomotiva" com motorização todo o terreno. 
- Já pensou em construir um parque subterrâneo com acesso pela Rua das Moitinhas, que poderia vir a ser o quartel-general do comboio turístico, haveria igualmente espaço para parquear umas bicicletas para alugar a turistas mais preparados fisicamente.
- Por cima do parque subterrâneo, criar a Praça de Táxis de Penamacor.
- Em suma, fazer da zona a Central de Transportes de Penamacor: Rodoviária Nacional (a falta que faz um parque sob o Pátio das Laranjeiras, com acesso privilegiado à Biblioteca Municipal), Praça de taxis, Comboio Turístico, bicicletas de aluguer.
Sr. Presidente
Vi na Selva da Republica o piso já em acelerado estado de deterioração, e, um canteiro aformoseado com relva.
É relva que foi a França “vitaminar” e regressou à base?
Ou, será uma prendinha de Natal aos Munícipes de Penamacor, desgostosos com a ausência de relva no seu querido jardim.
Termino, desejando a todos os naturais e residentes no concelho de Penamacor
VOTOS DE UM FELIZ E SANTO NATAL 2011
E apesar da crise
AS MELHORES ENTRADAS EM 2012
Zé Morgas

domingo, 4 de dezembro de 2011

Cueva de la Pileta - Setenil de las Bodegas

Ainda a curtir as memórias da fantástica viagem que fiz em Outubro, com os meus colegas de turno, a terras de Suiça e França, com espectaculares passeios por Genéve, ao redor do Lago Léman, Évian-les-Bains, Lugrin, Aigle, Col du Pillon, Saali, Gstaad, Château d’Oex, Montbovon, Gruyères, Bulle, Montreux…, aguardava com especial expectativa este passeio mototurístico até terras da Andaluzia.
Com pouco mais de cinco mil quilómetros rolados na minha Kawasaki 1400 GTR, sempre com excelentes condições, ansiava por um passeio com chuva e frio para lhe fazer um primeiro teste para a sempre muito dura e violenta viagem à concentração invernal internacional, Pingüinos 2012, que se realiza em Janeiro próximo entre os dias 12 a 15, em Puente Duero, Valladolid.
Agendar um passeio para os primeiros dias da última deca de Novembro, é quase iminentemente certo que as condições que desejava se verificariam.
Com seis motas inscritas, seis aventureiros e três corajosas Penduras a hora de partida foi-se aproximando.
Jantava eu calmamente na quinta-feira, dia 17, no restaurante do clube de ténis, uma chispalhada de coentrada, quando o telefone toca. Era o H.M. e me informa do seguinte: O nosso homem do Caminhão - TIR, atento como sempre aos mais ínfimos pormenores que os sites meteorológicos fornecem, não teve dúvidas algumas em interiorizar que a viagem seria feita sob intensa e molhada tormenta.
A menos de trinta e seis horas da partida, já com a obrigatoriedade de pagamento da caução pela desistência da reserva dos alojamentos, tomou a decisão de não ir.
O H.M., acabou por secundá-lo na desistência.
Pensativamente fui continuando a jantar. A desistência do H.M. causou-me alguma estranheza. Tantas foram as viagens que já fizemos em tão más e adversas condições.
Mais, a data do passeio, que coincidia com a sua folga grande, fora por ele escolhida. Eu, para estar presente, tive que com exigida antecedência, "queimar" três dias de férias. Creio ter havido na decisão tomada, alguma “doce solidariedade chocolatistica”; soou-me que houve por aí algures uma feira com muito produto confeccionado com bom cacau.
Novo telefonema. Era o J.F.
A sua Pendura, ao tomar conhecimento da situação, não queria ser a única presença feminina na viagem. Em suma, as primeiras duas desistências “arrastaram” uma terceira, perfeitamente compreensível.
Telefonei ao P.C., que já tinha entretanto telefonado ao Nosso Grande Comandante. Estavam os dois na firme disposição de partirem, tinham também "queimado" dois dias de férias, qual a minha decisão? Perguntou-me.
- Qual decisão? Nunca ponderei não fazer o passeio, respondi-lhe.
Malandro não estrilha, aguente a pastilha. Poucos mas Bons.
Partiriamos apenas os três estóicos Duros, sem penduras, em duas Kawas 1400 e uma BMW 1200.
Com o reconhecido traquejo de experiente Lobo-do-Mar, o Nosso Grande Comandante, após cuidada análise dos mais recentes dados disponíveis na Net, ditou na véspera com a sua douta palavra a doutrina da partida:
– Se partirmos lá para as onze da matina vamos sempre a andar atrás da chuva.
Para essa hora combinamos o encontro na pastelaria Celeiro Doce.
Compareceu para ver a nossa partida o Homem do Caminhão - TIR.
Quase a terminar o pequeno-almoço e começa a chover com alguma intensidade.
Vestimos os impermeáveis, preparados para o que viesse.
Sabendo o destino e os quilómetros que tínhamos pela frente partimos a fugir aos olhares incrédulos e admirados dos clientes que aquela hora estavam na pastelaria.
- Grândola, Santa Margarida do Sado, Beringel, Beja e a primeira paragem em Vila Verde de Ficalho, para almoçar um sempre calórico e fortificante cozido de grão, de digestão de longa duração.
- Rosal de la Frontera, Cortegana, a temperatura baixou para os sete graus centígrados, começa a cascar uma forte chuvada, que nos acompanhou até Aracena.
Paragem para atestar as motas, qualquer delas tinha agora combustível para chegar até Ronda e decidimos que seguiríamos por Sevilha, Utrera, El Coronil, Algodonales, Serra de Grazalema, Ronda.
Na Serra de Grazalema, a cerca de trinta quilómetros de Ronda mais uma forte chuvada começa a lavar-nos os fatos, com a agravante que já era noite. Os coloridos “arco-iris”, formados pelos reflexos das luzes dos carros com que cruzávamos, nas gotículas de água que teimosamente se agarravam ás viseiras dos capacetes, obrigou-nos a cuidados redobrados na condução. É uma condução muito exigente, sempre no limiar do perigo, reconheço.
Sãos e salvos chegamos ao Hotel Reina Victoria.
O nosso Grande Comandante acertou em cheio. Rolámos com muita estrada molhada mas com pouca chuva. Apenas umas fortes bátegas nas serras de Aracena e Grazalema.
Motas parqueadas, banhinhos tomados, munidos de um guia dos melhores bares de tapas da Serrania de Ronda o destino foi o “Bar Maestro, La Bodega de Verdad”.
Eleito para prato principal o afamado rondenho “Rabo de Toro”, enfardamos primeiro quatro fartos pratos de entradas, tudo regado com duas garrafosas de tinto da zona, sobremesas, cafés e uns “chupitos” de poejo.
Foi o eficaz rastilho para uma noite ”ruminante”…
Domingo
O dia estava sombrio e bastante chuvoso. Hora de tomar o primeiro pequeno-almoço no hotel. Muita variedade e de boa qualidade. Um perfeito chamariz para mais um abuso.
Entre as abertas da chuva a manhã foi passada no jardim do hotel que têm uma vista magnífica sobre as serras e os parques naturais que circundam Ronda.
Com tamanha instabilidade de tempo, decidimos que, mal a chuva abrandasse, iríamos almoçar ao “Bar Giralda”.
Entre petiscos, tombámos um tinto, Condado de Oriza, da Ribera del Duero.
Para ajudar a digestão uma caminhada pelo Passeio do Inglês, que São Pedro abreviou com mais uma descarada descarga de água. Molhados, nada melhor que ir bater uma sesta, afinal até estávamos no País onde batê-la é um imperativo nacional, e combinamos uma hora de encontro no bar do hotel para beber umas cañas.
Decidimos partir sem referências, à procura de um local para jantar. Em boa hora o fizemos, descobrimos um pequeno restaurante, tipo familiar, onde comi um saborosíssimo solomilho de cerdo. Um passeio pelas ruas desertas de transeuntes, e regresso ao hotel.
Um consulta na net ao boletim meteorológico, e a alegria de saber que as previsões para o dia seguinte eram animadoras. Um sedativo para uma noite calma, bem dormida.
Segunda-Feira
O dia amanheceu limpo.
Um temperado banho para despertar, e noto ao vestir o equipamento, que algo se passava com as minhas calças de cordura. Estavam demasiado justas ao corpo. Teriam encolhido com a humidade sofrida na viagem, ou os abusos gastronómicos por ali praticados já se faziam sentir? Ficou-me a dúvida.
Contudo e para não variar “atabojei-me” com um pequeno-almoço variado e bem entaipado. Os meus companheiros de viagem acompanharam-me na pecaminosa gula.
Satisfeitos, devidamente equipados, com bom tempo no horizonte, estavam então reunidas as condições para partirmos à descoberta e visita dos dois locais que tinham orientado esta viagem:
As grutas pré-históricas de “La Cueva de la Pileta”, com muitas pinturas rupestres, e um dos povoados mais assombrosos da geografia andaluza: Setenil de las Bodegas.
Saímos do hotel rumo ás grutas via Benaoján. Aqui brindou-nos o P.C. com uma das muitas rasteiras que o GPS lhe prega.
Meteu-nos pelo centro do povoado, por uma viela estreita de respeitável inclinação, com um manhoso “S” a meio, feita em primeira e gemida velocidade. Com Pendura na Mota a dificuldade teria sido maior. São subidas dignas de trialeiras.
Uff!!! Que sorte o Homem do Caminhão - TIR e Pendura não terem ido. A Pendura ter-lhe-ia vituperado a Alma para os próximos trinta a cem anos. Os primeiros trinta já o foram, algures numa via municipal, escandalosamente esburacada, entre a Figueira da Foz e a Praia de Mira, lá para os lados de Quiaios, a caminho da Gafanha da Encarnação.
Mas, esperava-nos uma segunda subida, palmilhada a “penantes”. O trilho que vai do parque de estacionamento até à entrada da gruta, com piso “barrocal” da era paleolítica. Uma caminhada estafante e escaldante.
Feita a visita à gruta, (mantêm uma temperatura interior de 15 graus e humidade a 100%, constantes durante todo o ano; diariamente é feito o registo das leituras na primeira e ultima visita efectuadas), à luz de dois “petromaxes”, aqueles típicos candeeiros a petróleo, de camisa, sob a orientação do guia, nascido no vale no sopé da encosta onde se situa a gruta, onde os habitantes do paleolítico pastoreavam o gado, rumamos a Setenil de las Bodegas sempre por caminhos agrícolas, de condução divertida.
Observam-se paisagens lindíssimas.
Aqui mais uma pequena peripécia.
A uns dez quilómetros de Setenil, uma placa informava que havias obras na via. O P.C. o guia do grupo, arriscou avançar. Pouco tardou a pararmos, decorriam trabalhos de asfaltamento. Invertemos a rota.
Sem chatice, a malta o quer é andar de mota, conhecer, visitar, passear. Fizemos mais uns trinta quilómetros, e à hora de almoço já estávamos em Setenil de Las Bodegas. Dirigimo-nos para o centro, por ruas estreitas, à procura de um lugar onde estacionar as Motas e com um restaurante por perto. Convém sempre ter os olhos postos nas Motinhas. São facilmente cobiçáveis.
Parqueamos as Motas frente ao restaurante Dominguez.
Como a temperatura estava amena abancamos na esplanada, começámos a hidratar o corpo com um “crianza” de Ribera del Duero “Resalso Lolo”.
Sem nada a apontar quanto à comida fornecida, apenas um reparo e que já não era virgem. Em nome da crise, abusando das mais esfarrapadas desculpas, furtam-se os industriais da restauração ao recebimento das despesas efectuadas, com pagamento através de cartões de crédito.
Dizem mesmo sem pudor, que lhe dá mais jeito receber em “pêlas vivas”.
Infelizmente por cá, neste cantinho à beira mar plantado também vai sucedendo o mesmo, cada vez com mais frequência,
Uma longa visita pedonal pelo povoado, há muito para ver, fotografar, filmar, para mais tarde recordar. O que chama a atenção no local são as casas que ficam bem perto, dentro ou até embaixo das montanhas. Sim, embaixo. Há construções feitas dentro de cavernas. Vale a pena visitar.
Com o escuro da noite já próximo, partimos para Ronda, atestámos as motas e ficaram no parque do hotel prontinhas para a viagem de regresso.
Ir a Espanha e não alimentar a “gota” com um delicioso “Pata Negra” é quase crime.
Dirigimo-nos para a zona mais comercial de Ronda, onde as ruas estavam apinhadas de gente, e entrámos no bar “Casas Rurales de Ronda” pertença de um antigo toureiro, as fotos expostas pelas paredes isso atestam. Com pouca clientela, por ser cedo, ou porque a crise para aquelas bandas também aperta, pedimos três cañas e um pires de “Pata Negra”.
Os pires, com o presunto cortado por habilidosas mãos, qualquer micro radiografia é mais grossa que a mais grossa fatia cortada, disposto a arregalar o olho e a fazer crescer a água na boca, são vendidos a preços proibitivos. Mas tivemos que o provar…e outras cañas se seguiram.
Soterrámos o “Pata Negra” com um jantar servido no restaurante do hotel. Antes de recolher ao vale de lençóis e a um merecido repouso, tempo ainda para o Nosso Grande Comandante consultar o estado do tempo para o dia do regresso à Lusa Pátria.
Terça-feira
Um acordar e um pequeno-almoço a papel químico dos anteriores. Sempre farto.
Com a quase certeza que só ”paparíamos” chuva no nosso Portugal, combinamos a saída por Moron de La Frontera para de seguida apanhar a auto pista de Granada - Sevilha, e acesso à A - 49 para Huelva, pela cintura Sul de Sevilha, com paragem programada na última bomba de combustível em território espanhol, onde a gasolina é muito mais barata.
Rotas introduzidas no GPS e à chegada a Sevilha é a vez do Nosso Grande Comandante fazer mais um dos seus erros de leitura, fruto da sua já “crónica distracção”. Com a indicação de saída à direita da auto-via Granada Sevilha, seguir em frente e virar num viaduto à esquerda, assinalado como segundo, virou no primeiro. Fomos parar à zona industrial pesada de Sevilha.
Mas que importa, o tempo estava óptimo e o dispendido pouco conta; que outra forma teríamos de visitar, conhecer aquela zona industrial de Sevilha.
Ah Grande Comandante! O que queremos é passear de Mota. Recalculada a rota via GPS, retomamos o trajecto correcto.
Paragem no posto de combustível fronteiriço onde os fregueses eram todos portugueses.
Não vislumbrei uma única matrícula espanhola.
Nova paragem em Castro Marim para almoçar.
A ouvir a informação do tempo na RTP, aqui sim, não tivemos a menor dúvida que seríamos brindados por São Pedro com uns valentes pingos.
Decidimos o trajecto de regresso por Mértola, Alcaria Longa, Castro Verde, Aljustrel, Mimosa, Grândola, Vila Nova de Santo André.
Não tardou a confirmação, ao sairmos do restaurante começou a chover. Manda a prudência que antes que se encharque o vestuário, o melhor é vestir os impermeáveis sobre o equipamento seco. Tal como na partida, isso fizemos.
Uns chuviscos, umas abertas, a estrada sempre molhada e eis que ali pela zona de Alcaria Longa se começa a vislumbrar no céu uma medonha nuvem negra. Vieram-me ao pensamento umas palavras tantas vezes ouvidas em pequeno à Minha Mãe Maria e à Minha Avó Conceição Pereirinha:
– “Vêm aí Borrasca da Grossa”.
Começa subitamente a descarregar água à caldeirada e a bater assustadoramente sobre o capacete e a viseira, o estrondo assemelhava-se a umas ruidosas morteiradas, sempre potenciado quando cruzávamos com o trânsito em sentido contrário e éramos bombardeados sem dó nem piedade, com os jactos de água disparados pelas rodas das viaturas.
Para agravar, quando alguma coisa corre mal, algo a piora ainda mais.
Entre Castro Verde e Aljustrel decorriam obras na via. Era grande o fluxo de camions e por três vezes paramos, porque a circulação apenas se fazia num só sentido. Era ver os óculos a embaciarem à vertiginosa velocidade dos relâmpagos.
A sova só parou na Mimosa.
Contudo cheguei sequinho a Santo André. Que abismal a diferença sentida entre viajar nesta Kawasaki ou na Velhinha Suzuki GSX-F.
Falta o teste derradeiro, já em agenda para o final da primeira quinzena de Janeiro do próximo ano: A ida ao Pingüinos 2012 com muita chuva e temperaturas abaixo de zero graus.
Tudo farei para estar presente.
Para começar passou a minha Kawasaki pelo Atelier CelCruMotos, fez a revisão dos 6000 Kms, e aguarda agora serenamente, na garagem o próximo passeio.
Não há sofrimento que abale o prazer de quem gosta de andar de Mota.
Viajar leva a um corte com a rotina e descomprime.
A todos os Companheiros e Companheiras das duas rodas, desejo:
Votos de Um Santo e Feliz Natal 2011
E que o ano de 2012 seja repleto de Bons Passeios
Boas Curvas
Zé Morgas

sábado, 15 de outubro de 2011

Carta Aberta XXIV - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente
Já circula abertamente na internet o
DOCUMENTO VERDE DA REFORMA DA ADMINISTRAÇÃO LOCAL
“Uma Reforma de Gestão, Uma Reforma de Território e uma Reforma política” e o respectivo anexo, que pode ser consultado em:
http://www.anafre.pt/
Doc_Verde_Ref_Adm_Local.pdf
Doc_Verde_Ref_Adm_Local_Anexos.pdf
FREGUESIAS A MANTER.pdf
FREGUESIAS A AGREGAR.pdf
A ANAFRE vai encetar as negociações com o Poder Central, debatendo este documento e apresentando propostas de alteração e eliminação de alguns critérios.
Sr. Presidente
Ao ler todos os documentos, bastante extensos e pormenorizados, a minha maior preocupação foi conhecer as notícias do meu Concelho de Penamacor.
  Lugar Nacional
- Índice de envelhecimento por lugar de residência; Nº de Pessoas com idade superior a 65 anos por cada 100 Pessoas com idade inferior a 15 anos: 538,7
  Lugar no distrito de Castelo Branco
- No decréscimo Populacional Superior a 10%. Censos 2001 » Censos 2011: -15,11%
E...
- Freguesias a agregar que não reúnem os critérios de organização territorial:
Águas.
Aldeia de João Pires
Bemposta
Meimão
Vale da Senhora da Póvoa
São só 5, alguém dirá. Num total de 12, são 41.66%, digo eu.
Duas da ala Norte e três da ala Sul.
Sr. Presidente
Fiz em Março uma sugestão em Carta Aberta dirigida a Vª. Exª. que passo a transcrever:
Por todo o país se começam a desenhar novos mapas com redução do número de freguesias, afim de nas eleições autárquicas de 2014 os cidadãos já elejam os presidentes de acordo com o novo ordenamento territorial. Todos sabemos as dificuldades que o nosso concelho atravessa, não as vou enumerar, são demasiado conhecidas, a imprensa local disso nos informa. Urge garantir a continuidade do nosso concelho e a sua sustentabilidade, com a necessária redução de custos.
Deixo-lhe aqui, Sr. Presidente, uma sugestão para proposta a apresentar em reunião de Câmara, na Assembleia Municipal e até mesmo apresentar à discussão pública:
- Eliminação da Junta de freguesia de Penamacor, seria absorvida pela Câmara Municipal.
- Eliminação das Juntas de Freguesia de: Vale Da Senhora da Póvoa, Benquerença, Meimão, Meimoa. Dariam lugar à criação da Junta das Freguesias Norte.
- Eliminação das juntas de freguesia de: Aldeia do Bispo, Aldeia de João Pires, Aranhas, Salvador, Águas, Bemposta, Pedrógão de S. Pedro.
Dariam lugar à criação da Junta das Freguesias Sul.
Sr. Presidente
A título de curiosidade deixo-lhe aqui os seguintes exemplos: Lisboa tem 53 juntas para 480 mil habitantes. Está em curso um estudo para a redução das mesmas, e apontam três cenários: 27, 24 e outro com apenas nove. Madrid tem 21 para 3,2 milhões de habitantes; Paris tem 21 para dois milhões de habitantes.
O concelho de Penamacor tem 12 juntas para mais ou menos seis mil habitantes.
Sr. Presidente
Quando sugeri a ideia de criar um novo ordenamento meramente administrativo das freguesias no Concelho, nenhuma freguesia era agregada a outra, tinha apenas em mente a salvaguarda da identidade e características próprias de cada freguesia.
Apresentava-se estatisticamente aos olhos da Anafre e da impiedosa Troika um Concelho de nível 3, com uma área de 563,7 Km2 e administrativamente com apenas e só, 3 freguesias.
Agarravam-se ao “Totta”...
Pela proposta apresentada o Concelho de Penamacor ficará ordenado com sete freguesias:
Penamacor, (tipologia APU)
Aldeia do Bispo, Aranhas, Benquerença, Meimoa, Pedrógão de S. Pedro e Salvador, (tipologia APR)
Interrogo-me como se vão agregar, reunir, juntar; anexar, associar essas freguesias. Há um critério definido, mas sabemos como são as rivalidades ancestrais enraizadas no terreno.
Na ala Norte duas agregam duas.
Na ala Sul quatro agregam três.
Que a agregação não seja um penoso caminho até à forca.
Será que num futuro próximo vamos ter e permito-me a usar os cognomes dos habitantes das freguesias, sabidos ou os agora inventados, assim agregados:
Trepa-serras agregados aos Barrigudos,
Altaricos agregados aos Cágados,
Cucos agregados aos Xendros,
Aguadeiros? agregados aos Aranhiços,
Bempostados? agregados aos Garranos.
Sob o olhar dos Gravatinhas e dos Barrentos.
Constatei que o Presidente da Câmara Municipal de Penamacor é também um dos Vice-Presidentes da Comunidade Intermunicipal da Beira Interior Sul, que integra os Municípios de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Penamacor e Vila Velha de Ródão.
Assim, têm o Sr. porque os dois cargos ocupa, a dupla obrigação de divulgar aos Munícipes do Concelho de Penamacor, o teor de todo o “Documento Verde da Reforma da Administração Local”, que se pretende ser o ponto de partida para um debate que se pretende alargado à sociedade portuguesa, com o objectivo de no final do 1º semestre de 2012 estarem lançadas as bases e o suporte legislativo de um municipalismo mais forte, mais sustentado e mais eficaz.
Sr. Presidente
Li no jornal Reconquista umas palavras proferidas pelo Sr. Vereador António Cabanas em Clamart, na inauguração do Jardim de Penamacor, (percebo agora porque temos uma selva na vila, a relva foi para França),
- “ Há ali um potencial de gente que pode vir a Penamacor…” a construção do Hotel em marcha…
O alojamento dos visitantes em concelhos vizinhos…por falta de capacidade hoteleira no município raiano.
O Hotel, essa tão estafada promessa durante anos, em campanhas eleitorais, não será ainda contaminado pelo vírus “paralisa - obras” do Muro da Vergonha e da Rotunda do Lar Dª Bárbara Tavares da Silva?
As palavras lidas serão tema em próxima carta, prometo.
Sempre ao Dispor
Zé Morgas

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Carta Aberta XXIII - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente
Os meus piores receios confirmaram-se.
As metástases do colossal mamarracho do Sumagral ramificaram-se:
Pariram uma armadilha fatídica, que sinalizaram como Lomba, a juzante do acesso à Escadaria de Santo António.
Os milhares de lombas que já vi por esse País e Mundo fora, são sempre a montante das passadeiras, ocupando algumas de facto, a largura de toda a via.
Sr. Presidente
Há momentos em que por vezes me deixo embeber em pensamentos teológico católicos e tento descobrir se a razão apanho, como mentes ditas sábias, idealizam, planeiam e mandam executar obras desse tipo, baseadas no princípio da geometria de esquina viva. Presumo que a ideia seja a de tentar controlar o abusivo trânsito nessa ultra movimentada artéria de Penamacor. Acredito que o avolumar das queixas apresentadas nessa Câmara e na sede da Junta de Freguesia, aí tão perto, tenham ditado tal solução.
Durante a minha recente estadia em Penamacor, galguei esse obstáculo de carro por uma meia dúzia de vezes, e sempre a vociferar um chorrilho de impropérios verbais que não me permito aqui recordar.
Recordo sim, o nome que ouvi pronunciar a um taxista Amigo em S. Salvador da Baía no Brasil a essas terríveis armadilhas: “Quebra Molas”.
Sr. Presidente
É conhecida a minha paixão pelas duas rodas.
Essa Lomba é “canja” para uma qualquer Mota trialeira, de enduro, de cross.
Contudo, para uma “R”, uma “RR”, uma “GTR” é uma armadilha ardilosamente montada, que pode ser fatal para o condutor. Passada a roda da frente, a altura da lomba serve de batente à Quilha, o que inevitavelmente origina “levá-la ao tapete”.
Qualquer pequeno conserto dos “plásticos” é sempre uma pequena fortuna.
Gastei na aquisição da minha paixão mais de “duzentos centos de “€uroses”, tornar-se-ia uma chaga jamais sanável na minha Alma o que uma armadilha assim parida pode causar.
Sr. Presidente
Sou um cidadão trabalhador, pago sempre os meus impostos atempadamente;
Nada devo ao Fisco nem à Segurança Social.
Não mereço ser mimoseado, tal como todos os meus companheiros motociclistas, com um presente tão envenenado.
Concordo até que se faça uma passadeira pedonal no local, à largura de toda a via, para disciplinar o transito e aumentar a segurança da travessia dos peões, elevada em relação à via, mas com generosa largura e ângulos de ataque na subida e descida adequados, que impeçam a suspensão das viaturas pelo chassis ou pelas longarinas, tornando-se assim também, menos perigosa para os veículos de duas rodas.
Sr. Presidente
Entristeceu-me ver as “camionetas” da Rodoviária da Beira Interior estacionadas em cima da faixa de rodagem. O parque de estacionamento é muito limitado.
Em 28 de Fevereiro do ido ano de 2002, vi no Café Central umas folhas A4 a apelar à formulação de sugestões e apresentação de informações com vista à revisão do P.D.M. de Penamacor. Nas instalações da D.O.S.U. apresentei quatro ideias, A "Pensar Penamacor 2020" que ficaram registadas e arquivadas.
A 3ª teria resolvido esse problema:
Um terminal rodoviário subterrâneo, sob o “Pátio das Laranjeiras”.
Apenas por curiosidade e sem me preocupar com a paternidade da ideia, a 4ª está feita:
O parque de estacionamento frente à Biblioteca Municipal.
Sr. Presidente
Li há uns meses atrás um artigo de opinião sobre a transformação da cidade de Castelo Branco sob a governação do Presidente Joaquim Morão. Com a devida vénia permito-me aqui divulgar o nome do autor e do jornal: José Lagiosa, Povo da Beira, 22 de Março de 2011. Uma prosa de gratidão à magnifica gestão autárquica desenvolvida.
Sinto inveja de não poder fazer o mesmo à equipa que dirige a gestão autárquica do meu Concelho.
Parabéns pelo nascimento de mais uma perigosa e “mamarrachal” Lomba.
Atenciosamente
Zé Morgas

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Carta Aberta XXII - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente
Já estamos no Outono. O nosso Outono Boreal. Noto as árvores já despidas e vejo o chão coberto pelas folhas amarelecidas já caídas.
É a estação parceira e cúmplice da saudade invasora das ainda recentes noitadas de estio tão bem passadas nas esplanadas. O frio chega aos poucos e de mão dada com a teimosia do vento.
Sinto que a natureza cumpre a sua rotina e que nos devemos adaptar a mais um ciclo de vida.
Tento dissipar a nostalgia e retomar novas fontes de energias mais calmas e mais sossegadas.
Algum tempinho passado na companhia da “net” é uma solução.
Talvez arrastado pelo meu imaginário de criança, retenho do Outono, o tempo da abertura do ano escolar, o tempo dos livros e cadernos a cheirar a novo, o tempo ideal de leitura.
Sr. Presidente,
Gosto dos paladares e aromas das receitas sazonais, das sopas, dos deliciosos cozinhados em panela de ferro, infelizmente já tão escassos, das castanhas, etc, etc, gosto da gastronomia beirã.
Por isso resolvi aceder à página Internet do Município de Penamacor e “cuscar” se por ali havia umas receitas tradicionais na gastronomia do concelho, que me serviriam de conselho, orientação mesmo.
Sr. Presidente
Começei a ler e a tristeza invadiu-me o espirito. Logo no primeiro parágrafo apanho com o nome da minha Mui Nobre Vila, vilmente escrito.
Permito-me aqui  “colar” o texto que copiei no site oficial da C. M. Penamacor.
Tem erros imperdoáveis numa página oficial de um Municipio, são erros de palmatória que rápidamente convém corrigir.
Por onde andaram, o administrador, o editor, o responsável pela publicação da página, a supervisão da vereação? 
Ou, será assim a nova escrita!? Ao abrigo do novo acordo ortográfico.
Conhecer o Concelho - Gastronomia
"Os comeres tradicionais de Penanamacor andam naturalmente associados “ao que a terra dá”, isto é, aos produtos locais. As sopas à base de batata, couve, feijão e grão-de-bico pautavam a alimentação quotidiana, intercalada da conserva de salmoura do porco criado na pocilga, bem como dos enchidos, uma e outros rigorosamente doseados para durarem o ano inteiro. As carnes frescas, de aves, cabra ou cabrito, ovelha ou borrego, mais raramente de vaca, assadas no forno a lenha, estufadas ou guisadas em panelas de ferro, ao lume, eram habitualmente reservadas para algum acontecimento extraordinário ou para as épocas festivas. Isto, é claro, para a maioria do povo.
Pela matança do porco, conforme as localidades, apresentavam-se os arrozes de carnes ensanguentadas (o arroz da espinhela, suã ou cevã), nacos de soventre cosido, assados da fressura e, pela desmancha (ou desmanchação), as febras assadas ou guisadas.
O queijo, as zeitonas de conserva, o toucinho, os enchidos, mais raramente o presunto, serviam para acompanhar o pão, tradicionalmente cosido nos fornos comunitários.
Os doces giravam essencialmente à volta do leite, o ingrediante mais à mão, com o qual se faziam os bolos de leite, o arroz-doce, as papas-de-milho.
A ADRACES - Associação de Desenvolvimento da Raia Centro e Sul, publicou em 2008 o livro “Cozinhados Lembrados”, volume que se constitui como o melhor repositório de toda a tradiçãogastronómica do concelho, pelo que se aconselha vivamente a sua consulta".
Sr. Presidente
É caso para dizer:
“Em Penamacor, comida cosida, vestuário cozido”
Atenciosamente e sempre ao dispor
Zé Morgas

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

No Hospital - 1

Sei pela vida vivida que as aparências escondem muitas coisas, um medo desconhecido, uma dor profunda, uma mentira complexa, um sentimento alimentado secretamente, um mundo completamente diferente do que se vê...
Por detrás da coragem, sempre existe um medo, no meu caso as agulhas das seringas, é preciso mostrar força para o mundo quando se é o mais apavorado de todos os seres vivos do planeta.
É uma batalha própria, interna e constante, cada segundo na presença de uma agulha passa lentamente e ás vezes, até duvido, nem acredito em mim mesmo.
Sozinho, e com estes pensamentos na cabeça, dirigi-me na quarta-feira, dia 14 de Setembro pelas catorze horas, ao Hospital do Litoral Alentejano afim de ser internado para ser submetido a uma pequena cirurgia, a reparação de uma hérnia incisional.
Concluído o ritual da papelada da inscrição, mandaram-me aguardar na sala que também serve de refeitório no piso 2, e pouco tardou a ser contactado por uma enfermeira que me encaminhou ao quarto A 206 e me indicou a cama 25, que seria o poiso da minha dormida por supostamente duas noites, e o armário onde guardar o pouco que levava.
Foi-me entregue um pijama, (tinha sido informado durante a consulta de anestesiologia que teria de usar a farda do hospital, confesso que nem um pijama tenho, nunca usei tal peça de vestuário) de imediato trocado por um tamanho XXL, pese o facto de com muita dedicação e entrega física a uma bicicleta elíptica, ter perdido umas honráveis graminhas nos dois últimos anos.
Com esforço redobrado dos botões, sempre na ânsia de abandonarem a casa, lá agasalhou o meu esbelto corpito de peso pesado.
Deitado sobre o colchão em pose experimenta cama, a olhar o tecto, a geometria e a decoração do espaço, vejo a entrar no quarto uma bonita enfermeira que com uma terna e meiga voz os quatro residentes - pacientes cumprimenta com votos de “Boa tarde”.
Corre uma cortina e dá alguma privacidade ao espaço onde estava deitado outro paciente. Contudo, tal não invalida que tudo se ouça. Percebo que a tarefa a executar era, e perdoo-me a vulgaridade do termo, desconheço em absoluto o termo técnico de tal acto, enfiar um clister nas nalgas do paciente.
Ecoam no ar uns ais doridos, ouço aquela terna e meiga voz:
- Senhor..., fiz como das vezes anteriores, pus bastante gel, mas sabe, já está um pouco dorido.
A sofrer mas resignado lá dizia o paciente:
- Pois é, pois é, mas têm de ser, aiii, aiiiii, mas tem de ser, aiii, aiiiii…
Oh, oh se tinha. Pelo sustenido do gemido fiquei com a firme certeza que aquela porra deve doer à séria, e sei lá se enfiado em profundidade não deixará roto o recto!!!
Tarefa cumprida, saiu a enfermeira que voltaria momentos depois e me submeteu a um breve questionário.
Respostas obtidas, disse-me que teria de me rapar os pelos na zona da área a operar. Porque sei o que sofri quando da queda da mota, antes de rumar ao hospital cortei eu próprio os pelos com uma máquina de cortar cabelo. Disse-lhe isso.
- Vamos ver, ouvi, e começou a fechar o cortinado ao redor da minha cama.
- Abra o casaco, baixe um pouco as calças e as cuecas. Senti a "migalhinha" que já por incontáveis vezes me fez escandalosamente feliz, gelidamente arrepiar de todo.
Uma sentença rápida:
- Vou ter de lhe cortar os pelos a partir do meio das pernas.
Coa breca, a hérnia é na barriga, quase junto ao peito. Porquê rapar tanto? Interroguei-me admirado e em silêncio!
- Se têm que ser, que seja, respondi-lhe.
Segui-a até uma sala na outra ala do corredor.
Desconfortavelmente deitado sobre uma maca estreita coberta por um lençol branco de papel, começa o "serviço de tosquia" com ruidosa máquina, e, para espanto meu, delicadamente feito, só na zona abdominal.
Voltei ao meu quarto e à minha cama. Uma sesta ajudaria a passar o tempo. Sonolentamente embalado ouço novamente aquela terna e meiga voz a dizer para o paciente que pouco tempo antes ouvira gemer:
- Sabe, possivelmente é operado pelo lado da barriga e vou ter de lhe cortar os pelos.
Corrida mais uma vez a cortina para evitar aqueles indesejáveis olhares curiosos, o som da máquina de barbear “timbila” pelo ar, cessa a minha sesta, deixo-me então conduzir numa viagem ao meu tempo de menino e à minha grave queda de mota, ocorrida já lá vão mais de Dez Anos.
Algumas foram as vezes que fui ao hospital e à Casa do Povo em Penamacor para ser observado por médicos e enfermeiras, consultas, levar injecções, etc, etc.
Cresci em menino, tal como os meus companheiros, hoje homens de cinquenta e mais anos, com a imagem das profissionais de bata branca de rostos, alguns já rugosos e sempre com vozes autoritárias, ordens eram para cumprir sem pio, sobrepunham-se mesmo à voz do poder maternal,
- Se a Srª. Enfermeira o diz…
Com o advento do 25 de Abril de 1974 novos Mundos chegaram ao mundo dos jovens adolescentes que pelas Beiras Interiores viviam.
Quem não recorda ainda com alegria e alguma nostalgia, e deixo-me aqui de falsas hipocrisias, as milhentas revistas folheadas da frente para trás de trás para a frente, com aquele mulherio lindo de corpos curvilineamente torneados, vestidas com curtas batas brancas, meias altas, ligas sexy, toucas nas cabeças, com a bandeira Suiça, a cruz branca sobre fundo vermelho, estampada nos pontos mais devoradamente olhados. 
Um vigorosíssimo motor de arranque para os "pobres" jovens carentes, entrados na puberdade, andarem numa constante azáfama a "contar caibros", era à esquerda, era à direita, sempre a malhar na trave. Ah! mãos calejadas!
Por essa altura também, fiz as primeiras visitas ás Capelinhas de Baco em Penamacor, havia por lá umas dezenas, as conversas ouvidas na altura aos mais adultos no intervalo de um "copo de três", já invariavelmente, e para esquecerem a vida dura das agruras do campo, eram sobre mulheres, os tipos de mulheres... e onde à socapa se faziam passar de mão em mão as tais fotos sacadas nas revistas, para uns lânguidos, voluptuosos e deleitosos olhares, moralmente reprováveis, proibidos mesmo.
É mais que sabido que a grande ambição das mulheres é a de torturar, humilhar, castigar, esmagar e infernizar a vida aos desgraçados dos homens que se lhes atravessam ao caminho.
Para a maior parte do mulherio, a sua concepção de vida eterna no paraíso é semelhante à de uma câmara de tortura da Inquisição, em que elas, refasteladas num sofá, assistem ao espectáculo de uma fila de machos a serem destroçados, e onde se reconhecem os ex-namorados que as trocaram por uma boazona qualquer, os vizinhos que lhes rosnavam no elevador, o colega da escola que troçava das tranças e uma infinidade de outros marmanjos que tiveram o azar de cruzarem com elas num dia em que estavam com a bolha.
Felizmente para nós, isto resume-se a sonhos que pouco nos incomodam.
O pior é que há algumas que não têm pachorra para esperar pelo dia do juízo final e resolveram tratar do assunto mais pragmaticamente cá na terra.
É desta estirpe que são recrutadas grande parte do enfermeirame.
O que as motivou para abraçarem a profissão foi precisamente a possibilidade de nos tratarem a pontapé e abaixo de cão, sem se sujeitarem ao justo castigo a que não escapariam noutra circunstância.
Mas não.
Apanham-nos debilitados, prostrados numa cama manhosa de hospital, incapazes de arrastar uma gata pelo rabo e vá de nos humilhar com todo o desprezo, e a deixarem bem claro que não passamos de uns seres desprezíveis nas mãos delas.
De cada vez que o enfermeirame topa com um desgraçado, assume de imediato o papel de anjo vingador, destinado a infligir-nos todos os castigos por tudo aquilo que fizemos, ou que eventualmente possamos vir a fazer, a todas as mulheres do universo.
Começam logo por nos mandar despir até à cabeça, mesmo que o problema seja uma unha encravada. O objectivo é exclusivamente o de nos pôr à rasca, porque é óbvio que o desconfortável da situação, o frio e a figura repelente da profissional de bata não permitem a exibição dos atributos em estado resplandecente, muito antes pelo contrário. É já com um esgar de gozo e desprezo que ela rosna um - Deite-se, num tom infinitamente mais humilhante do que aquele que usamos para com o rafeiro lá de casa.
Mas o pior é quando lhes mandam aplicar-nos qualquer instrumental.
Até os olhos se lhes riem nos momentos que precedem o espetar das agulhas, o apertar os garrotes ou enfiar a algália. E a coisa é sempre feita com requintes de malvadez, ignorando completamente as nossas reacções à tortura, dando a entender que somos completamente dispensáveis e que por elas tanto se lhes dá que lerpemos logo ali ou que nos piremos para casa. Aproveitam-se cobardemente do nosso estado de fraqueza.
Absorto nestes maliciosos pensamentos e caducas análises infundadas de conversas de tasca, algumas coincidências com a realidade são meros casos raros de unhas encravadas…ouço:
- Tenho que lhe dar uma injecção na barriga. Posso?
- Com que fim? perguntei. Mais do que propriamente saber o que me ia injectar, precisava de num ápice me preparar psicologica e mentalmente para o tormento da visão da agulha e o  flagelo da picada.
Uma explicação detalhada, e interiorizei o fluido injectável com sendo um anti coagulante do sangue.
Nem senti a picada, para grande alívio meu. Que doçura.
Chega a hora do jantar e uma provocação aterradora ao meu estômago:
Uma sopa líquida e uma gelatina com sabor desconhecido do meu paladar.
Findo o jantar, nova visita da Enfermeira de serviço, a oferta de um comprimido Lorazepam, relaxante, para melhor dormir, pelas 11 horas bebi um cházinho sem açúcar de um sei lá qual aroma, troca de turno do pessoal em serviço, luzes apagadas, e havia que aguardar pelo dia seguinte.
Noite calma, acordei com o toque de alvorada feito pelo ruído das persianas a subirem.
Uma auxiliar de serviço deixa toalhas para o banho e roupa limpa junto ás camas.  Com surpresa verifiquei que a minha bata se vestia da frente para trás, e mais, para usar tinha umas meias elásticas que lambiam as virilhas e duas mini embalagens de um poderoso purgante rectal.
Homem sofre.
Corpinho purgado, banhinho tomado, uma carinha laroca, vestidinho assim, quase parecia uma bailarina espanhola de “tablao sevilhano”. Faltaram os sapatos.
Recebo a visita de duas enfermeiras, novinhas, estagiárias penso, lamentei o facto de não ter direito a tomar o pequeno-almoço, deram-me um comprimido relaxante que coloquei debaixo da língua para surtir o efeito desejado, e, começou o doloroso martírio de umas picadelas no braço esquerdo para me colocarem um cateter. Concluído o serviço, alertei não estar correcto, disseram-me que tudo estava bem, até uns 20 minutos depois, sentia uma dor cada vez mais premente.
Pedi par ser observado. Confirmado o erro da colocação, trocaram o cateter que me injectava o soro …para uma veia na mão direita.
O braço esquerdo e mão esquerda tinham o dobro da volumetria do braço direito e mão direita, e uns belos pensos brancos como ornamento. (Sofri a descolá-los do pelo. Deveria ter "tosquiado" os braços também).
Ficava assim em espera até ser encaminhado para a sala de operação.
Disse-me então uma enfermeira que após a operação, seria colocado na sala de recobro e só por volta das 20 horas regressaria ali, aquele quarto, aquela cama.
O tempo ia passando, e numas palavras soltas ouvidas, tive a percepção que algo havia corrido mal na intervenção cirúrgica que precedia a minha.
Chega a hora do almoço. Só estávamos dois residentes no quarto. Chegou apenas uma refeição. Fiquei a ver navios. Vi uma enfermeira no corredor, chamei-a e perguntei-lhe o que se passava comigo. Disse-me nada saber, percebi que por claros motivos ético profissionais e que respeito. Manifestei-lhe a minha vontade de abandonar o local e ir almoçar algures para os lados de Deixa o Resto.
Cerca das 14 horas, uma enfermeira veio ter comigo e dizer-me que ia comer uma sopinha, e o médico, não me disse qual, viria falar comigo.
Reforçei a minha ideia que algo anormal se passava.
Sabendo que para ser operado, necessitava de um longo período de jejum, tive a certeza que o não seria nesse dia, alimentando a esperança de ser operado no dia seguinte.
Ao paciente - residente na cama em frente à minha, a 22, fora dada alta médica, chegaram então as auxiliares de serviço afim de mudarem toda a roupa para novo utente, já em espera no corredor. Uma auxiliar deixou escapar que a roupa da cama 25 era também para substituir, porque eu iria ter alta.
Que surpresa choque!!!
Fui avisado da alta médica, pelas duas enfermeiras que me “desentubaram o soro” para poder sair em total liberdade do hospital, sem compromisso algum de lá voltar, e que, na hora da despedida, com muito profissionalismo, dedicação e ternura...(qualidades extensivas a todo o pessoal sem excepção, que me “tratou” naquele serviço, incluindo a simpática estagiária que sem querer, me “provocou o brutal inchaço do braço esquerdo” a quem deixo um sentido conselho:
Há coisas na vida que ninguém aprende sem cometer erros, errar faz parte do conhecimento.  Há apenas uma classe a quem não perdoo os erros e é até fantástico, quando lhes pagam muito bem para fazer aquilo que não sabem, mesmo que isso implique fazer asneiras de todo o tamanho. Essa classe é a nossa classe política.)... me avisaram do problema da minha tensão alta, problema que há anos conheço e pouco respeito.
Em verdade não quero morrer com muita saúde, nem rico.
Quero apenas viver muito, sem sofrer.
Sofrer doí.
Não tenho medo à morte; a morte indiscutivelmente um dia levar-me-á com ela.
O médico, como me tinha sido dito pela enfermeira, não compareceu para me dar a alta, numa clara falta de ética e pouco respeito pelo paciente, que ali esteve internado durante 24 horas à espera de um serviço de cirurgia, para o qual, com muito sofrimento foi medicado e preparado, e que lhe não foi prestado.
Sai do hospital sem ver a minha situação clínica resolvida, e em piores condições do que aquelas com que para lá entrei, o braço esquerdo e a mão esquerda  anormalmente inchados, incomodativas dores na zona onde esteve espetado e amarrado o cateter, completamente perturbado psicologicamente e animicamente desgastado.
Zé Morgas




domingo, 24 de julho de 2011

Estados da Alma - 4

Com uma directa no pêlo, trabalhei durante o turno da noite, parti de Vila Nova de Santo André rumo a Faro, quinta-feira, dia 14, pelas 10h e 30m, com os meus companheiros das duas rodas, o Lázaro, o Prof e o filho David à pendura, e os “debutantes” J. Ferreira e L. Amaral, nestas andanças de concentrações.
Rolámos nas calminhas, um dos elementos do grupo “carrega” uma pesada pena suspensa ás costas, nada de outros excessos por enquanto, uma paragem no Rogil para saborear as magníficas empadas, e cerca das 13 horas chegamos ao destino. O sol estava no pico, o calor escaldava, a fila para adquirir os ingressos ao invés da habitual quinta-feira de anos anteriores, era enorme.
Como nunca tinha visto.
Bilhetes de acesso comprados, e enquanto os meus companheiros foram  montar os mini hotéis ambulantes, eu fui reservar uma mesa para almoço no Ateliê da Comida, o Restaurante Santo António, em Faro.
Começou logo ali, o rotineiro abuso que se manteria, para mim, até madrugada alta de sábado por terras do barlavento algarvio.
Se duvidas havia, todas caíram por terra.
A XXX Concentração Internacional de Motos, Faro 2011, bateu todos os records.
Mais de trinta mil inscritos no Vale das Almas, cada vez mais a Catedral do Motociclismo Europeu.
O Culto, que juntou milhares de pessoas, numa festa colorida e barulhenta, afinal, está forte no Vale das Almas, e demasiado grande para apenas três dias.
Uma das grandes atracções do encontro deste ano foi o bar suspenso até cerca de 40 metros do chão, uma plataforma, onde não faltou cerveja e música, içada por um guindaste.
"Quem não tem vertigens pode ir lá acima, tem uma vista espectacular”, diziam os primeiros fregueses.   
Cá o rapaz andou sempre, por opção, pelos bares mais térreos.
A banda britânica de heavy-metal "Iron Maiden” encabeçava o cartaz musical da concentração e subiu ao palco, logo no primeiro dia do evento num concerto cuja abertura estava a cargo dos algarvios Mindlock, que acabaram por faltar.
Mas a festa continuou.
Sábado pela manhã, como previamente tinha definido, regressei a Santo André, uma curta estadia de três horas, e parti rumo a Penamacor, onde tinha combinado uma jantarada com dois casais amigos.
Com a rodagem totalmente feita, estava na hora de testar mais à séria a minha nova máquina, a Kawasaki 1400 GTR.
Com mais de trezentos quilos, basta tirá-la do descanso central para perceber que não me vou sentar em nenhum “brinquedo”. Já completamente habituado à altura do banco, habilmente rebaixado pelo meu Amigo Mineiro, estofador de profissão em Penamacor, é chegado o momento mágico de dar ao arranque. Uns minutos de aquecimento ao ralenti, rodo o punho naquele instinto de “ligação” com a máquina e sinto imediatamente uma fonte inesgotável de potência.
Engreno a primeira velocidade e faço-me à estrada.
Largo a embraiagem, arranca quase ao ralenti, em andamento sinto-me quase o rei do mundo.
Entre Alcácer do Sal e Santa Susana cedo à tentação e começo a abusar da caixa e a enrolar o punho. Rapidamente percebo pela inclinação que rolo num ritmo muita para além do de passeio e sei que estou no limite da minha coragem.
Chego aos “rectões” antes de Ciborro.
Era imperativo ouvir o “ronco do escape” acima das oito mil rotações, e testar a eficiência do controlo de tracção, sem ligar minimamente a consumos, que se revelam proibitivos aqueles regimes de motor. “Três abaixo” e começo a trancar punho. O ronco é assustador mas maravilhoso, quase me levou a um “orgasmo timpânico”, a velocidade bateu nos dois ponto quatro, circulava com top-case e malas laterais. Depois, travar, é só apertar a manete, o ABS e o fantástico equilíbrio da ciclística fazem o resto.
O prazer de condução está garantido e a protecção aerodinâmica é excelente.
Que Maquinão!!!
Não tenho sombra de dúvidas. Uma Mota digna de uma Diva.
Contente e satisfeito com a Minha Kawasaki 1400, alegre e divertido com o prazer da condução cheguei a Penamacor, parei junto ao marco do correio, no Alto da Praça, assim que tirei o capacete, fui logo obsequiado com uma Sagres fresquinha, oferta do meu Grande Amigo Luís, nascido em 61, Pé Leve de alcunha até morrer.
Lanche, jantar, bem regado a tinto da zona de excelente uva, e acabo a noite a ouvir uma espectacular banda a tocar música dos anos sessenta, os “4 Sixties Band”, na esplanada do Bar O Quartel, na Praça Nova, onde outras fresquinhas bebi pela minha caneca de inox, sempre “suada” pelo exterior, que comprei em S. Paulo, Brasil, a caminho das cataratas da Foz do Iguaçu, e que sempre me acompanha nos meus passeios de mota.
Os hectolitros derramados naquela caneca são já incontáveis.
Deixo aqui o registo de uma promessa feita, ao Paulo e ao Duarte, a aceleração da decomposição etílica não me trava a memória, de duas canecas de inox, iguais à que eu uso, nada de imitações baratas, compradas nas lojas dos naturais do país dos habitantes com os olhos rasgados.
Falo de canecas em aço inoxidável de estrutura cristalina, com composição típica de 18% de cromo e 10% de níquel, frequentemente usado no fabrico de talheres, vulgarmente conhecido por aço inoxidável, austenítico, 18 / 10.
Domingo, para retemperar as forças nada melhor para almoço, no Restaurante o Zé Galante, que uma miga de peixe, soberbamente confeccionada à moda de Vila Velha de Ródão e um ensopadinho de veado, convenientemente regado.
Já no Café Central em Penamacor, a beber uma água das pedras, chega para tomar café um grupo de Amigas. Pergunta-me a Minha Amiguinha Maria, se andar nesta mota era muito diferente de andar na outra, referia-se à minha ex-velhinha Suzuki, a mota onde fez o baptismo das duas rodas, tal como a Bárbara, numa curta viagem até ao Recinto de Nossa Senhora do Incenso, a Padroeira do concelho de Penamacor.
Lá lhe expliquei que normalmente não há palavras para descrever como é andar de mota, e mais difícil ainda quando se rola acima dos dois zero zero. São sensações inexplicáveis. Há palavras para descrever o que é conduzir uma mota, mas nunca são completas. Diversão, adrenalina, prazer, felicidade de contemplar a natureza de uma outra forma. Podia dizer muitas mais, mas nenhuma se aproxima do que é andar de mota. Nem que seja à pendura.
Percebi pelo brilho nos olhos dela que estava com vontade de dar uma voltinha naquela Kawasaki 1400 GTR. As crianças são a vida mais pura que podemos carregar nos dias. Fazem-nos trilhar caminho e sentir a vivacidade no ar.
Fui buscar um capacete, e depois da permissão da mãe, decidi que iria fazer o mesmo trajecto, embora em sentido oposto, ao que eu fiz, sozinho, aos comandos da Flandria do meu Pai, motinha que aprendi a conduzir no verão de 1971, tinha eu dez anos de idade, e que hoje guardo religiosamente, completamente restaurada, na minha garagem, em 25 de Setembro de 1975, o dia em que tirei a minha licença de condução de velocípedes com motor auxiliar, a celebérrima “verdinha”:
Penamacor, Sr.ª dos Caminhos, Memória, Águas, Aldeia do Bispo, Ponte das Taliscas, Água Férrea, Penamacor.
Foi à época, Uma Grande Viagem, que não era de todo uma viagem grande.
Foi o desabrochar da minha alma errante de motociclista viajante.
Terminada a viagem, mais duas Penduras alinharam, uma num percurso mais curto.
A todas as Penduras, e depois de alertadas para o efeito, e sem medo, medo é palavra que não entra nas motas, brindei na variante com uma rápida e alucinante subida de rotação até ás dez mil RPM, o que levou a terceira velocidade a ultrapassar a barreira dos dois centos de quilómetros, e o pneu traseiro a um precoce desgaste.
O som daquele escape parecia uma declaração de guerra.
Lindamente ensurdecedor.
Mas as surpresas para a pequena Maria não ficaram por aqui. No final do dia, e porque ia para o parque de campismo do Freixial com os seu grupo de escoteiros, decidi que iria levá-la na minha mota. Fomos a cabeça da caravana. Chegados ao destino, vi naquele rosto de menina que o é, uma genuína suave felicidade e uma enorme alegria incendiária, que encantou duplamente a minha viagem de regresso à Vila. Antes tinha visto uns lindos cabelos cor de seara madura.
Fechei o Central, a beber mais umas fresquinhas com uns amigos, antes de entregar o corpo ao cuidado do vale dos lençóis.
Segunda-feira, pela manhã, a prioridade foi cozer o bordado da participação na XXX Concentração Internacional de Faro no meu colete de cabedal. Isso fez o Mineiro, como só ele sabe, e com a perfeição e brio que a ele se impõe nas variadas tarefas que executa.
Almoço no “Venetas”, um passeio pela Vila para bater umas chapas fotográficas, e começam ao final da tarde os preparativos para confeccionar dois valentes galos do campo para jantar.
Que deliciosos estavam. As sobremesas divinais.
Seguiu-se a degustação de uns cálices de “ginginha caseirinha”. Primava pela excelência.
Serviu por graça, como um combustível seco para escancarar um frágil coração.
Uma ida ao bar da Vila, mais uma bjecas fresquinhas, e, uns desabafos nostálgicos de um período vivido de fortes vícios da minha vida, sobretudo, sexo.
Há sempre homens nos dois extremos da curva normal:
A minoria que tem apetite a mais e a outra, que tem desejo a menos.
Uma só mão chegava para contar os meus amigos deste tão restrito grupo com apetite a mais.
Ainda hoje me interrogo sobre a vivência daquela fase. Era jovem, não tinha compromissos e sempre gostei de me divertir. Vivia sozinho, e felizmente, sempre ganhei para as minhas diversões. Foi uma fase boa, engraçada, direi até um período fabuloso, mas ruinoso, potenciei amizades com loucura à mistura.
Esbanjei a rodos saúde e dinheiro.
Foram umas centenas de dias de “amor” à temperatura da brasa, com sexo intervalado por cerveja, champanhe e comida.
De manhã, à tarde e à noite só pensava em sexo, os sonhos quase sempre eróticos e as conversas invariavelmente obscenas, mas sobretudo gostava de praticar e várias vezes ao dia sem importar o sítio. Trocas de serviço, espaços frequentados, viagens, com destinos preferencialmente para paraísos sexuais: Pérola do Atlântico, Cabo Verde, Cuba, Brasil... tudo era planeado em função do desejo sexual.
Tornou-se uma obsessão, um completo transtorno do controlo dos impulsos. À compulsão por sexo juntou-se uma insatisfação permanente. Talvez tenha procurado uma relação ideal que não existe, com uma mulher perfeita que nem sei ao certo como é. As que tive quando cediam perdiam o interesse. Quando havia luta, a recusa aumentava a adrenalina, o sucesso só podia ser o prémio final.
Foi casualmente, e através da escrita que consegui ter uma perspectiva real dos sentimentos que envolviam as minhas acções. A partir desta auto-descoberta iniciei um processo de mudança estrutural. Quis voltar à normalidade.
Terça-feira acordei tarde. Era o meu último dia por terras beirãs. Tinha decidido sair pelas 16 horas, resolvi então sair mais cedo, logo após o almoço. Já por ali não fazia nada e incrivelmente apetecia-me andar de mota. Deposito atestado e equipo-me para papar os longos quilómetros da raia até ao mar.
Mal arranco e o meu pensamento começa a varrer em retrospectiva todos os acontecimentos recentes. As dúvidas assolam-me sobre a minha existência e o que me anda a acontecer.
Sei que algures, mais adiante na minha vida, hei-de encontrar quem queira fazer uns passeios comigo na vida.
Sim, eu sei, está escrito.
Mas talvez fosse agora que eu queria não sentir este vazio de viajar sózinho.
Queria só dar um sentido à minha viagem da vida.
Sei, já sei que nada dura para sempre.
Mas, interrogo-me sem resposta, porque haveria eu, agora, já passado do meio século, viver martirizado por um coração debilmente apaixonado por uma mulher que o não deseja, e também o não merece.
É um sofrer em silêncio, que silenciosamente vai matando.
Sei que ninguém adoece porque quer, nem ninguém tem prazer no sofrimento
Como diria Roger Martin du Gard, in Os Thibault
Não quero mais ser como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor.
Quero ser como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e, abafado nesse aperto supremo, morrer entre os braços da flor que elegeu”.

Com a devida vénia ao Grande Fernando Pessoa. aqui transcrevo um maravilhoso poema, que espelha o retrato da minha Alma:

O Amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio"
Alberto Caeiro - O Pastor Amoroso

Não pedi para nascer, não consegui, também não quis, que alguém me amasse.
Tomei sempre as decisões erradas.
Agora vou deixar que a vida decida por mim
Zé Morgas