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sábado, 29 de maio de 2010

Estados da Alma - 2

Entrei no último ano, da primeira década dos “entas”, a caminho do meio século.
Sem saber porquê, esta primeira semana tem sido de melancolia, e não é o avançar da idade que me apavora.
Apeteceu-me contemplar o mar cá do alto, e por isso vim até Sines.
Gosto deste meu apartamento.
Hoje, estranhamente, reparei que tendo a mesma área do meu outro apartamento em Vila Nova De Santo André, me pareceu tão grande, de vazio que está.
O de Santo André começa-me a parecer pequeno, de tão cheio que está.
Aqui, em Sines, quis tudo reduzido ao indispensável, importante é só mesmo as janelas abertas para o mar, a minha varanda, e … a minha cadeira dos sonhos, uma simples cadeira de madeira.
Na minha varanda, num oitavo andar, virada para o mar, por vezes, deixo-me ficar horas esquecidas, a sonhar, a olhar o mar.
Um pequeno luxo a que ainda me posso permitir, e não dispenso, sem ligar a nada, sem tão pouco sentir grandes saudades de certos momentos da minha vida e de certos momentos de pessoas que pela minha vida já passaram.
Verdade que por vezes até penso no que já tive, no que poderia ter tido, no que me passou ao lado. Agora, quero pensar no que posso fazer para melhorar a minha vida, para voltar a viver.
Quero interrogar-me em silêncio do que há de errado comigo.
Já fiz muita merda na vida, com a consciência plena de que me estava a arruinar, corri riscos, já andei muita vez em completo desequilíbrio, no fio da navalha.
Mas não ligava.
Sempre soube, e como o povo tão bem afirma, uma imagem vale mais que mil palavras.
Hoje em dia, é a imagem, e seja em que campo for, profissional, pessoal, prioritária para nos ajudar a alcançar sucesso, e só temos uma ocasião para causar boa impressão. Goste-se ou não, vivemos em sociedade, e estamos constantemente a ser avaliados pela nossa aparência e pela forma como nos comportamos.
As pessoas facilmente podem duvidar do que se fala, mas piamente acreditam no que vêm fazer. Levam muito tempo para esquecer, ou não esquecem nunca.
Admito que até agora, não tive muitos cuidados com a imagem. Cheguei a esquecê-los mesmo. Por vezes, sou muito impulsivo, quando penso já agi. São acções que me vêm do fundo, de uma espécie de desordem emocional. De algumas situações vividas, fiquei com remorsos, uma há mesmo, com vergonha, e dela não me lembro completamente, como realmente sucedeu. Como diria um conhecido meu amigo alentejano das Relvas, a propósito de um sujeito que viu a dançar:
“Dança com tanta bailhação, que até já lambeu o chão”.
Sei a necessidade imperiosa de dar mais atenção à imagem, e não é por uma questão de auto estima. Quero acreditar, que ao virar esta curva do meio século, o que se perde em juventude, se ganha em maturidade, e me obrigará decerto, a olhar mais para mim e aproveitar melhor a vida, vida que anda numa fase muito complicada.
Por razões vividas, “programei-me” para não me apaixonar nunca mais, porque não me queria magoar mais, nem sofrer.
Construí uma muralha, que julgava inexpugnável.
Quase sempre na vida há um evento responsável pelo facto de pararmos de progredir, seja um trauma, uma derrota especialmente amarga ou uma desilusão amorosa. Faz mesmo com que nos acovardemos e não sigamos em frente. Leva-nos a um banal acomodar de vida.
Foi para me livrar de um determinado acomodar, vivido nos meus tempos de estudante, no Externato de Nossa Senhora do Incenso, em Penamacor, que me levou mesmo ao total alheamento pelos estudos, que concorri para me alistar na Força Aérea Portuguesa, com dezasseis anos, a idade exigida era, mais de dezassete anos de idade, na altura da realização dos exames psicotécnicos, com a esperança, de só ser chamado depois de fazer anos, e que felizmente aconteceu seis dias depois.
Assim, prestadas as provas, e superadas, ingressei na Força Aérea Portuguesa como voluntário, em vinte de Junho de 1978, para iniciar a recruta.
Uma recruta sofrida, feita todos os dias debaixo de calores abrasadores, até Jurar Bandeira em trinta e um de Agosto desse mesmo ano.
De Setembro de 1978, até à primeira quinzena de Julho de 1979, foi período de formação.
Foi nesta altura que comecei a conhecer o bas fond de Lisboa, e os arredores.
Junto com um camarada de recruta e curso, natural de uma aldeia a uns vinte quilómetros de Penamacor, mas a viver desde tenra idade na zona da linha de Cascais, cedo soubemos que nos era permitido meter durante a semana, umas dispensas, e viajar no autocarro da Força Aérea, no serviço de carreira, da Base até Lisboa e vice versa. Parava na Praça do Chile.
Com a justificação que ia visitar, jantar com os seus pais, e eu como convidado, duas ou três vezes por semana, lá fazíamos o caminho.
Na Praça do Chile, e já fora do olhar dos restantes passageiros, todos militares, vestido um casaquinho de malha, sobre a farda de saída, azulinha, iniciávamos então o passeio a pé até ao Cais do Sodré, porque em verdade, na altura, o dinheiro não abundava, havia que poupar nos transportes, para sobrar para mais umas sempre desejadas fresquinhas bjecas, e embarcávamos no comboio, pagávamos por ser militares, somente vinte e cinco por cento do valor total do bilhete, rumo ao destino eleito, invariavelmente entre Oeiras e Cascais
Tal como eu, embora mais velho, ingressou quase no limite de idade permitido, o meu amigo frequentava o 2º ano do curso complementar dos liceus.
Entre os “vivants” da linha, e ex-colegas de liceu, era o meu amigo mais conhecido que o Bispo de Beja, amigas e amigos eram ás resmas, e cá com uma pedalada… sempre danadinho a organizar uma das celebérrimas e badaladas festas, encontros de garagem, a que chamava de bailes. Com muitos abusos de todo o tipo e poucas regras.
Foi brutal o choque inicial.
Bailes na minha terra, faziam-se alguns por ano, lá lhe enumerava os que me recordava: Carnaval, Pinhata, Páscoa, S. António, S. João, S. Pedro, bailaricos de verão com muitos emigrantes, Madeiro, e Finalistas.
Bailes mais privados, recordo dois ou três, inocentes convívios de miúdas e miúdos da rua, Rua de Carros, na casa do homem que tocava realejo, no espaço comum, cozinha e sala de jantar, ao som de uns discos rodados naquelas já hoje relíquias de museu, “Silvano, Three in one”, propriedade de uma prima que vivia em Lisboa, mas, sempre sob olhares atentos, perturbadores, de mães, pais, vizinhos, que até os passos mais afoitos incomodavam.
Dizia-me o meu amigo, Penamacor é uma terra bonita, mas fica lá detrás do sol-posto, no meio dos barrocos. Com a mesma música, por aqui a dança é diferente.
Rapidamente compreendi o significado de tais palavras, apesar de só ter dezassete anos.
Findos os encontros, (quando não os havia, vagueávamos só pelos locais mais “duros” da noite lisboeta), o regresso. Comboio até ao Cais do Sodré, e novamente um passeio pedestre, não para a Praça do Chile, mas para o aeroporto, para o bar do 1º andar, onde pela madrugada começavam a chegar os elementos das tripulações dos aviões. As beldades, hospedeiras, hoje assistentes de bordo, que por lá vimos.
Era beleza a mais por metro quadrado.
Ali, naquele antigo edifício do aeroporto, na zona dos embarques, na varanda virada para a pista, tomávamos o pequeno-almoço, a ver os aviões, uns a levantar voo, outros a aterrar.
Ali, cresceu em mim o desejo de assim que possível, voar num daqueles gigantes pássaros de lata. Na base aérea da Ota, apenas via aviões de pequeno porte: Cessnas, gostava do puxa-empurra, Fiats, Chipmunks, Aviocars, o “grande” Hércules C130, e os helicópteros Alouette I e III.
Seguia-se mais uma pequena caminhada a pé, até ás antigas portagens da A1, em Sacavém, para apanharmos o autocarro de regresso à base. Sentados na coxia, embalávamos num confortante repouso até chegar. Da paragem do autocarro até ás camaratas, era andar em passo acelerado. Tempo apenas para passar uma “aguinha” ao de leve pelo rosto, pegar nos manuais de formação, e lá seguíamos, em ordem unida, para o centro de instrução. Dias houve, em que me apetecia por uns espeques a segurar as pestanas, para que se não fechassem.
Noites de dureza, dias de sofrimento.
Depois da especialidade concluída, por primeira opção de escolha de colocação, fiquei no honroso “top ten” dos melhores classificados do meu curso, escolhi a Base Aérea nº 4, nas Lajes, na Ilha Terceira, nos Arquipélago dos Açores.
Realizava então o sonho tantas vezes tido, naquela varanda, no velho edifício do aeroporto:
Voar de avião pela primeira vez, no Hércules C 130, e conhecer outros lugares do Mundo.
Chego aos Açores, à ilha Terceira, ás Lajes, em 13 de Julho de 1979, com a pujante idade de dezoito anos.
A idade em que até se rebentam barrocos, e nada mete medo.
Do tempo passado, da vida vivida, na base portuguesa e na base americana, (de outra galáxia) nas Lajes, nem me atrevo recordar. Choraria com a saudade dos … “estados das sentinelas graníticas”.
Meu Deus!!!
Há vezes em que penso, que já vivi algures num paraíso…
Desde esses tempos passados nos Açores, até agora, sempre o mesmo tipo de vida, almoçaradas, jantaradas, petiscadas, noitadas, gajas, etc, um frenesim de vida em que me preocupei muito mais em dar vida aos anos, do que anos à vida. Foram de auge agravado, de vícios, sexo sobretudo, os anos vividos, a seguir ao acidente que tive de mota. Nunca fui rico, não quis sê-lo, sempre preferi essencialmente ser livre, mas um confortável desafogo económico permitiu-me essas “ lascívias brincadeiras”.
Gozei, é verdade. Afinal era fácil de contentar, tinha o mais simples dos gostos, contentava-me com o melhor que havia, ou, apenas o que se apanhava.
Mas há coisas com o tempo que acabam por acontecer de forma lenta, longa e totalmente inesperada.
É fácil construir uma imagem e viver com ela, difícil mesmo, é conservá-la, vivendo-a.
A minha muralha sorrateiramente foi dominada, deixa-me exposto a uma fragilidade insustentável, nem vencido nem vencedor.
Há momentos na vida em que nos deveríamos calar e deixar que o silêncio falasse ao coração. Pois há sentimentos que a linguagem não expressa e há emoções que as palavras não sabem traduzir.
Não entendo o porquê da verdade, tão complicado.
Das muitas vezes, que tenho saído com amigas e amigos, é ver qual se diverte mais, mais alto fala e mais se ri. Sei que é uma mentira, porque o mundo não anda assim tão alegre. Sei, que muitas e muitos fingem que tudo está bem, mas andam perdidos à procura da felicidade, à procura de um cantinho seguro, de um portinho de abrigo.
Várias foram as vezes que já me perguntaram, maioritariamente mulheres, se “andava com alguém” ou se estava ”amigado”.
Por vezes respondo-lhes, como sei que gostam de ouvir.
Confesso, que “amigado” é seguramente das palavras que mais detesto ouvir.
Os amigados não são meia dúzia de amigos que vivem juntos. São duas pessoas que preferem suportar-se uma à outra do que aguentar a solidão. Não vivem de amor e paixão, vivem com pantufas e «hamburguers» congelados. Não fazem declarações de amor, fazem declarações de voto para ver quem leva o lixo ao caixote.
Vivem juntos por viver, porque calhou, porque era gira ou tinha umas boas pernas, porque estava ali à mão quando se alugou, ou comprou a casa.
Foi há poucos dias, numa conhecida e bem frequentada pastelaria aqui na zona, enquanto tomava o pequeno-almoço, que ouvi duas bonitas raparigas, com um ar simpático, a conversar:
- Isto está difícil, não me aguento com a despesa da casa, vou ter de engatar um gajo para partilhar as despesas.
Engatar um gajo!!! Assim surgem os andados.
Os andados são dramáticos, porque são um sub produto. São clandestinos, envergonhados e passam a vida a esconder-se das pessoas. Quando apresentam a sua parceira de cama num cocktail, dizem: Esta é a minha amiga Maria.
Grande Amigo. Apetece bater-lhes.
Os andados não se divertem, porque andam sempre muito ocupados a mostrar a toda a gente que não têm nada com a pessoa com quem dormem. Ela faz-lhe ciúmes com os amigos dele, e, ele arregala o olho para as amigas dela. Lá andar, até andam, mas é a ver é quem engana primeiro o outro.
Pelo que me toca, já não estou em idade de ser enganado, e muito menos enganar quem quer que seja. Felizmente também, que ainda não preciso de dividir despesas. Por enquanto, gasto como quero e com quem me apetece, e por vezes com quem não o merece.
O que quero então? Francamente, tudo se baralha.
Com a minha muralha fragilizada, dou comigo na minha varanda, na minha cadeira, a olhar o mar, a sonhar, num desses sonhos felizes, onde finalmente se têm tudo o que falta.
A magia regressou. Sonho com encontros de amor.
Gosto de encontros mágicos, como mágico tem de ser o Amor.
O Amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte. Amando, namorando.
Namorar é que é bom. É gostar às claras, contar histórias, escrever cartas, dar miminhos, suspirar, dar beijinhos no sinal encarnado, passear de mão dadas, fazer birrinhas, brincar ás escondidas nos roupeiros e dizer toda a espécie de parvoíces sem cair no ridículo. Namorar é fazer tudo sem preconceitos, nem medos. Mesmo que seja para ver uma corrida de MotoGP, num domingo à tarde, a dois, a roer pipocas, enrolados numa mantinha roubada a TAP num voo de longo curso.
O melhor de namorar, é que namorar não cansa como andar ou estar amigado. Namorar é sempre como dar o primeiro beijo, levar o pequeno-almoço à cama, dar a primeira massagem ou preparar o primeiro jantar a luz da vela. E sabe sempre a novo mesmo quando já se tem quase meio século.
Sonho que, o tempo não tem de se arrastar como se estivesse apenas a gastá-lo sem o partilhar com outra pessoa, sentir a felicidade de o partilhar com alguém que ame, que me ame.
Sonho, que não quero ficar o resto da vida sozinho, com medo da solidão.
Sonho, que já não é preciso fingir que está tudo bem.
Sonho que para ser feliz, basta que me dêem a liberdade de ser sincero, a sinceridade é primordial, amar e ser fiel ao mesmo tempo.
Mas sonho é sonhar, a realidade é bem diferente.
Aqui, já em Santo André, ao passar todos estes pensamentos sonhados para o computador, olho para o meu sofá verde, verde da cor da esperança, local onde algumas vezes sem sonhar deixo o pensamento voar, em voos mais reais, quero aceitar com a maior honestidade e coragem, porque apenas não me quero enganar, sabendo contudo que ninguém é perfeito, que com esta vida de boémio, e uma imagem tão desleixada, não mereço aquela Diva, que tanto me faz sonhar, que me faz sentir tão próximo do Céu, com os pés assentes na terra, e, com um olhar, uma chama no olhar, que me queima o coração.
Mas, naquele sofá verde, também já tive um sonho, um sonho verde…
Que ainda aqui mora a esperança dos dias que hão de vir.
Até lá, ou até morrer, saberei viver, a sofrer, mas a sorrir.
Zé Morgas

Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém. Posso, apenas, dar boas razões para que gostem de mim e ter paciência para que a vida faça o resto. (William Shakespeare).

Carta Aberta XIV - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente Junto envio foto, tirada no dia do meu aniversário, "algures" em Penamacor. Que péssima prenda. Estou ao dispor de Vª. Exª., para lhe revelar o local, caso o não consiga identificar. Sem mais comentários. Atentamente Zé Morgas

sábado, 15 de maio de 2010

A Panela

Durante quase vinte anos, companheira inseparável do fogão, guardiã incansável dos queimadores, vulgo os bicos, e eis, que subitamente se vê arredada e privada das funções que silenciosamente e exemplarmente cumpriu.
Sem na verdade saber porquê, foi destronada do seu pedestal, a minha panela de ferro, comprada no Recinto de Nossa Senhora Do Bom Sucesso.
Desde pequeno que sempre ouvi dizer lá pelas bandas onde nasci, na bonita Vila de Penamacor, entre as feiticeiras mulheres, que a sedução se inicia na cozinha, e ali poderiam enfeitiçar quem quer que fosse, obter amor, dinheiro, saúde, enfim, tudo.
Dai que a cozinha, se tenha tornado um espaço mágico, fosse respeitada como um lugar sagrado, o altar das mulheres.
Nesse altar, único local onde não tinha medo de ser mulher, e onde compreendia o mistério do poder da fêmea, a mulher seduzia sem manha, mesmo que por vezes, os resultados nem fossem os mais esperados, ou os mais satisfatórios, depositava os mais caros segredos, as mais altas expectativas e até mesmo os mais ardentes desejos.
Ao longo dos anos, a mulher, nesse altar, a cozinha, transformou os mais parcos e corriqueiros ingredientes num cardápio digno de servir o Papa, Cardeais, Bispos e Divindades.
Cresci, a respeitar, esse espaço que não era meu, não o invadindo.
Mais, sempre me custou aceitar o facto de se passar três, quatro, por aí adiante, horas a cozinhar, para depois se comer tudo em apenas alguns minutos.
Excluindo a satisfação da degustação e o prazer ao palato.
Mas, a vida têm cá coisas!
Estive há dias numa consulta rotineira, no âmbito da medicina no trabalho, e, ao queixar-me de um pequeno incómodo sentido, ainda ressaca da queda de mota sofrida, fui aconselhado a fazer uma ecografia à massa peritoneal. Aguardo o resultado, mas lá me disso o Médico:
- Têm que perder peso.
Há muito que o sei.
Decidi então que está na altura de me poupar a alguns exageros, é a altura para começar a “controlar a gula” e aprender a cozinhar.
Até tenho grandes amigos e colegas de trabalho, que são grandes cozinheiros.
A cozinha já não é um local só das mulheres, já não é o seu exclusivo altar.
Em jeito de confissão, não posso deixar de partilhar o seguinte:
Sei, porque em conversas com amigos frequentemente o constato, e onde me incluo, o grande mal para as cabeças masculinas, têm sido a descoberta tardia, porque o homem sempre demora mais tempo a perceber determinadas situações, em não perceber que a mulher cresceu no aspecto profissional, no aspecto pessoal e na realidade de vida.
É mesmo com pesar, muito pesar, que algumas vezes informo alguns homens mais atrasados, quase primatas, que as mulheres se tornaram mais conscientes e pensantes, passaram a realizar os seus sonhos, e que neles não estão incluídos apenas a maternidade como principal, e a cozinha.
Doravante, quero testar as minhas capacidades, usar a minha criatividade, paciência e habilidade, desenvolvê-la-ei decerto, para fazer a minha própria comida.
Ousarei mesmo, um dia, depois de saber, ou julgar saber, confeccionar boa comida, obsequiar uma Mulher linda e pensante, com um delicioso jantar.
Parto, com vontade, rumo à aprendizagem.
Zé Morgas

domingo, 9 de maio de 2010

El Puerto de Santa Maria 2010

E já lá vão dez presenças consequtivas em El Puerto de Santa Maria.
Este ano sai de Santo André, já com o bilhete no bolso, para a Tribuna X1, fila 18, “assiento 69”, com a promessa feita a mim próprio que iria assistir a todos os treinos e ás corridas do MotoGP, Moto 2 e 125.
Anos houve, em que apenas assisti ao vivo, aos treinos de sexta e sábado. Domingo, as corridas eram vistas na televisão, não pela dificuldade sempre acrescida de acesso ao autódromo, (foram entretanto feitas notáveis obras nas acessibilidades e no parqueamento) mas sim por culpa das violentas e longas noites de sábado, sempre convidativas a excessos e a dormir até mais tarde.
Com o pequeno-almoço já combinado em Santiago do Cacém, na tasca do Diamantino, local onde se degustam as mais saborosas bifanas feitas aqui na zona do litoral alentejano, pelas oito da matina de quinta-feira, dia 29 de Abril, lá compareceram os amigos do costume, e um estreante nestas idas a Puerto, o “Grande Comandante”.
Partimos pelas nove horas.
Decorreu a viagem sem incidentes, paragens apenas para abastecimento, homens e máquinas, chegámos a Puerto cerca das 15 horas locais, com cerca de quinhentos quilómetros percorridos.
Guardadas as motas no parque subterrâneo, mesmo em frente à casa que alugámos, este ano negociámos o valor, 40 €uroses cada mota, de quinta a segunda, descarregou-se o material, (quis o azar, que as asas de um saco de plático cedessem, partiram-se logo ali no parque, duas garrafas de um nectaroso bagaço feito pelo Capitão Espargo e pelo Gabi), transportou-se tudo para casa, e, de seguida abancámos no local do costume:
A marisqueira Romerijo, para beber “unas cañas” fresquinhas e abafar o calor sofrido na viagem. A acompanhar as “cañas” um sortido de petisquinhos.
Decidimos ali, que o jantar seria no restaurante “Méson del Asador”. Combinada a hora, altura para tomar um retemperador banho e mudar de trajes.
Cumpriu-se assim o ritual do primeiro dia.
Sexta-feira, Eu, O Capitão Espargo e o “Grande Comandante”, que não tinha bilhete de ingresso, fomos para o autódromo, à hora de abertura das bilheteiras, um pouco mais cedo que o começo dos treinos livres.
Que sorte!
Conseguiu o último bilhete que havia para a mesma tribuna onde estava Eu e o “Capitão Espargo”. A informação obtida na Net, dava a tribuna com lotação esgotada.
Foi com a mais agradável surpresa que constatámos que os lugares na tribuna eram numa posição privilegiada, via-se quase metade do circuito. Espectacular.
Cada bilhete valia bem os oitenta “Paus” gastos.
Assistimos logo, na primeira volta dos treinos de Moto 2, na curva Ferrari, a um aparatoso acidente, felizmente sem danos para o piloto, mas a mota ficou totalmente desfeita.
Seguiram-se os treinos de MotoGP.
Para minha satisfação, e dos que naquela zona da tribuna estavam, o som dos escapes das motas, a Ducati foi a rainha, assim que enrolavam o punho à saída da “Curva Ferrari”, a gritar até cortar, e meter uma acima, caminhava precisamente na nossa direcção, como igualmente caminhava, quando à entrada da “Curva Ducados”, a curva que acede a recta da meta, lhes jogavam duas ou três abaixo, tornou-se por volta percorrida um encanto acústico de prazer quase orgásmico.
Indescritível os que os ouvidos, ouviram.
Adivinhava-se já o que seria o espectáculo de Domingo, onde todos rolam, sempre que possível, na cola da roda da mota dianteira, com os motores a gritar sem ordem para fraquejar, nos limites absolutos do red line.
Findos os treinos, com uns "escaldões" não desejados, nos braços e pescoço, a temperatura subiu além dos trinta graus, o regresso a casa para almoço.
Connosco, foram de Santiago quatro amigos de carro, dois, como o “Grande Comandante” igualmente estreantes nestas andanças, era a sua primeira vez, em Puerto.
E, um deles, um exímio cozinheiro.
Foi o carro atafulhado com bebida e material de qualidade, para confeccionar farnel até Domingo. Por isso, à nossa espera para almoço um fabuloso arroz de tamboril feito pelo Zé.
A diferença vista, sentida, entre este arrozinho e o feito pelo “Capitão Espargo” no ano passado.
Prontificou-se o “Nosso Capitão Espargo”, a fazer um arrozinho de tamboril. Comprados os ingredientes, peixe e marisco, fresquinhos, na praça local, bem sortida, perto da nossa casa, e vá de meter mãos à obra.
Para surpresa de todos, eis senão, quando puxa do seu telemóvel e liga à Senhora sua Esposa a pedir instruções para confeccionar o manjar. Tudo corria de feição, até ao momento de adicionar o arroz. Era o grupo composto por umas honoráveis nove pessoas, e, à excepção de um, todos bons garfos.
Mas, daí até meter no tacho, grande, sem dúvida, um quilinho e meio de arroz foi um passo.
Nunca ninguém tinha visto um tacho a “produzir” tanto arroz. Uma luta sem igual entre o tacho e o cozinheiro, arroz fora, arroz dentro. Ganhou o tacho. Inundou a placa vitrocerâmica e boa parte da bancada da cozinha.
Mas, valha-nos ao menos, fez e faz, o nosso Capitão, umas omeletas de ovos com espargos silvestres e farinheira, como não se come igual em mais lado algum do planeta, e, decorada com um 46, o número do nosso ídolo Rossi, em salsa fresca. Vê-se a alegria estampada no rosto do Zé, em exibir a frigideira com a obra de arte.
Cozinha com criatividade.
Desta vez, com dois cozinheiros de craveira no grupo, fomos todos os dias presenteados com reais banquetes.
Arroz de tamboril, massinha de peixe, sopa da massinha, bacalhau assado no forno, carne assada no forno, carne frita em manteiga vermelha, sopa de grão e legumes, suculentos bifes ao alho na frigideira, queijos, presunto, chouriça, etc…
E, tintol superior da Fundação Abreu Calado. Para o ano não faltará de certeza uma reserva da "Quinta dos Termos".
Sábado, quase um papel químico de sexta-feira, os treinos livres, passaram a cronometrados, para definição das posições a atribuir na grelha de partida.
Entre treinos, aproveitámos o tempo para as compras e um passeio pelo autódromo.
Chega entretanto Domingo, e as tão esperadas corridas.
As bancadas totalmente apinhadas de gente.
O parque de estacionamento parecia um mar de motas, mais de cem mil.
Sentia-se no ar, que tudo estava reunido para se tornar um memorável dia de “Fiesta”.
Nas 125, corrida disputadíssima como nunca vi, os primeiros dobraram mesmo os pilotos mais atrasados, foi ganha pelo espanhol, Pol Espargaró, piloto da Derbi. Nesta corrida o pódio foi todo espanhol, Nicolas Terol em segundo e Esteve Rabat em terceiro, ambos da equipa Aprilia.
Nas Moto 2, depois de um início atribulado, caíram nove pilotos devido a óleo na pista, a corrida foi mesmo interrompida com a exibição da bandeira vermelha. O impressionante trabalho desenvolvido pelas equipas de limpeza, permitiu, porém, realizar a corrida meia hora depois.
Ganhou com todo o mérito depois de sofrida e renhida corrida, o espanhol Toni Elias, em Moriwaki.
Nas MotoGp, com dois espanhóis a lutar pela vitória, ganhou o Jorge Lorenzo, companheiro de equipa de Valentino Rossi, que averbou o terceiro lugar.
Lorenzo comemorou a vitória de uma forma também nunca vista. Havia no circuito uma charca de água, vulgo uma piscina, para onde resolveu atirar-se. Não fosse a ajuda dos seguranças do circuito e tinha lá ficado. Capacete, botas e fato, tudo ensopadinho em água, dificultaram-lhe a saída e a vida como nunca julgou.
Com esta classificação, obtida em Jerez de la Frontera, passou para a liderança do mundial de pilotos, o Jorge Lorenzo com 45 pontos, ficando em segundo o Valentino Rossi com 41.Dani Pedrosa, que obteve o segundo lugar na corrida, fica na terceira posição do Mundial com 29 pontos.
Para terminar a “fiesta”, foi todo o público brindado com um belo fogo de artifício.
Mas o dia não terminava aqui.
Tinha-mos ainda a esperança, alguns, porque também havia um sportinguista e um portista, de ver o Benfica sagrar-se campeão na casa do dragão.
Sentados numa esplanada, a beber um cognac caseiro, a tentar descobrir onde se poderia ver o jogo, senta-se numa mesa ao lado um casal com uma criança. Ao ouvir falar português, não resistiu o senhor a meter conversa, porque, era português de nascimento. Feitas as apresentações, era, é o marido da senhora que com ele estava, senhora que têm uma loja de motas em Puerto, e onde já fomos “desenrascados” algumas vezes. Aproveitando o facto de tão poucas vezes estar com conterrâneos e falar português, muitas menos vezes ver jogos de bola, e logo com a importância daquele, um empate, fazia do Benfica campeão, ali decidiu, o Gomes, ir connosco assitir ao jogo a um bar restaurante que conhecia.
Levou-nos para a zona de Valdelagrana, ao bar restaurante “El Punto”, sito na avenida de la Paz, nª 3, aberto 24 horas por dia e com serviço ininterrupto de cozinha.
Mais um espaço a juntar à longa lista dos que já conheço por aquelas bandas.
Para azar nosso, Benfiquistas, sorte do amigo que nos acompanhou, portista dos sete costados, irmão do grande goleador bi bota de oiro, Fernando Gomes, o Benfica perdeu por expressivo resultado de três a um, jogando apenas contra dez adversários.
Um dia para esquecer.
De vitórias, nem Rossi, nem Benfica.
Valeu contudo, o petisco que estava bom, e acima de tudo o convívio.
Na segunda-feira, dia de regresso a casa, e tempo ainda para mais uma alegria gastronómica.
Almoçamos no restaurante “O Milho”, em Aldeia Nova de S. Bento, onde a comida estava um must. Cozido de grão, arroz de pato e uma saborosíssima sopa de cação.
A mousse de chocolate, caseirinha, deliciosa, como há muito não me passava aqui pelas papilas gustativas.
Terminámos a viagem a "enxugar umas verdinhas", na cervejaria Covas, em Santiago do Cacém.
Para o ano, a certeza de que lá estaremos, para mais uma valente lestada.
Tempo agora, para com calma, preparar a mota para a grande viagem aos Pirinéus, França, a realizar entre os dias 18 e 27 de Junho próximo.
Com boas curvas.
Zé Morgas