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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pirinéus 2010 - 2

Terça-feira, 22-06-2010
Chegámos a Luz Saint Sauveur já ao final da tarde, início da noite.
Enquanto o H.M. e P.C. apresentavam o voucheur, para se fazer o check-in de entrada, junto com o J.R. e A.G. decidimos matar a sede e beber uma cerveja francesa, no bar, mesmo junto à recepção.
Chaves dos quartos distribuídas, tratou o pessoal de se acomodar.
Como queria fazer a barba e tomar um retemperador banho, bebi a minha cerveja rapidamente. Dirigi-me ao elevador e a primeira surpresa, nunca tinha visto um elevador tão pequeno: duas pessoas do meu tamanho cabiam a custo, só literalmente “ensanduichados”.
Saí no segundo andar e começo a ouvir o A.B., talvez o elemento mais calmo do grupo, mesmo mais que o Q.F.
- Não pode ser, foi feita uma reserva de um quarto triplo, o quarto distribuído têm uma cama de casal, e mais uma minúscula cama de apoio. Somos três para partilhar o quarto.
- Calma, pode ter havido engano, foi o que lhe disse; fui abrindo a porta do meu quarto, e para espanto meu, só tinha uma cama de casal, (de matrimónio, como dizem os vizinhos Espanhóis).
Tinha sido feita uma reserva de um quarto duplo, com duas camas, para duas pessoas.
- É uma cama igual há que está no meu quarto, disse o A.B.
Chega entretanto o segundo utente do meu quarto, o J.R., e constata a situação.
Como é dos elementos do grupo que mais fluentemente fala francês, junto com o A.B. e Q.F., dirigiram-se à recepção afim de solucionar o problema.
Com a barba já feita, estava a passar em abundância uma águinha pelo lombo, quando ouço o J.R. dizer:
-Eu e o Q.F. vamos dormir num hotel aqui próximo.
Foi-lhes dito, pelo recepcionista, por sinal dono do hotel, Hotel London, que, os quartos estavam todos ocupados, outras camas não tinham, a solução passava por disponibilizar um quarto com duas camas, ou dois quartos, noutro hotel, a uns duzentos metros de distância.
Sem outra hipótese, só lhes restou aceitar aquela solução proposta.
Combinámos como ponto de encontro, o bar na recepção do nosso hotel, para dali partir o grupo à procura de um lugar para jantar.
O pessoal foi descendo e comentava-se o sucedido.
- Pedimos informações a quatro hotéis e só este respondeu, disse o P.C.
Chega o J.R. e o Q.F.
Nos rostos de ambos, estampado o desânimo.
- É uma vergonha, o espaço está em obras, há entulho por todo o lado, as camas não estão feitas, é um cenário desolador, disse o J.R.
Soubemos entretanto que a oferta para jantar, aquela hora e naquele povoado, era limitada. Além do restaurante do próprio hotel, cheio com os hóspedes, quase todos praticantes de ciclismo, aberto, só uma pizzaria, na praça central.
Para lá nos dirigimos.
Um espaço pequeno, acolhedor, os donos de uma simpatia contagiante.
Tudo fizeram para nos servir da melhor forma que puderam com o que tinham à disposição.
Regressados ao hotel, sentados na esplanada, já ”munidos” de um mapa de pormenor da zona, alinhavamos o passeio para o dia seguinte. Havia algumas, pequenas divergências, sobretudo quanto à hora de chegada ao hotel.
Ai aqueles pensamentos nos “banhos de vapor”. Houve informação que os havia por ali perto.
Hora da deita.
O espectáculo que foi ver, partir, sei que me perdoarão, o J.R. e o Q.F., a caminho do outro hotel, de lençóis debaixo do braço, para ainda irem fazer, eles mesmos, aquela hora, as suas camas de lavado.
Aquele inesquecível almoço, as subidas ao Col d’Aspin e Col Du Tourmalet, no coração dos "Hautes Pyrénees", fatigados com estavamos, creio que qualquer espaço, era bom para dormir.
Quarta-feira, 23-06-2010
Passeio pelos Pirinéus.
Acordei cedo e bem disposto.
A manhã estava bonita e já se fazia sentir o calor.
Começou o grupo a juntar-se em volta das mesas, para tomar o pequeno-almoço. O mais pobre pequeno-almoço servido durante toda a viagem.
Chega o J.R e Q.F.
Confirmei o que pensei na noite anterior:
Quando o cansaço aperta, qualquer lugar é bom para dormir.
Vinham com um aspecto fresquinho, só que…
- Porra!!! nem quero acreditar, que tomei banho de água fria, água quente nem vê-la, dizia o J.R.
- Aconteceu-me o mesmo, estava gélida, dizia o Q.F.
Ouvindo, partilha-mos os seus lamentos e sofrimentos.
Água fria logo pela manhã…
Para compor o hall de entrada do hotel, e não ser presenteado com um tão degradante cenário, composto de entulho das obras, fez o Q.F., um biombo com colchões, dispostos na vertical. Sempre escondia qualquer coisinha.
O Q.F., “virou” decorador.
Motores das máquinas em movimento e partimos rumo a Lourdes, ao Santuário de Lourdes.
Lourdes é uma pequena cidade francesa, localizada aos pés dos Pirinéus, a 420 metros de altitude. Situa-se entre a planície e a montanha.
Lourdes é um centro de peregrinação mundial.
Recebe todos os anos mais de 1 milhão de peregrinos cristãos vindos de mais de 150 países, que permanecem na cidade por alguns dias.
Tudo começou em 1858, entre os meses de Fevereiro a Junho.
Nesse período Nossa Senhora, Mãe de Jesus, manifestou-se por 18 vezes a Bernardet Soubirous na Gruta de Massabielle, nos arredores de Lourdes, declarando-se ser a Imaculada Conceição, aquela que vem socorrer todos os que se encontram com o coração atribulado por sofrimentos físicos e morais. Em todas as aparições, trouxe ao mundo um apelo de conversão mediante a oração e a penitência. Foi a partir das aparições que as peregrinações começaram, e continuam até hoje, cada vez mais intensas, em busca de ajuda e de renovação interior, pelos peregrinos cristãos.
Depois de ter cumprido tudo o que a minha consciência me ordenou, resolvi, junto com alguns elementos do grupo tirar uma foto.
Pelo visto, dezenas serão os grupos que escolhem aquele local para a foto. Estava naquele local um grupo a “bater umas chapas”, quando uma senhora nos diz:
- Desculpem lá, mas deixem-me tirar uma foto com o meu marido.
- É portuguesa, dissemos quase em uníssono.
Não resisti mesmo a fazer um comentário, sobre a forma como se posicionaram para tirar a dita foto.
Quem são, donde vêm, para onde vão, isso nos perguntou a senhora.
Alguém dos nossos respondeu em nome de todos.
Tirou a foto, tirámos as nossas de seguida..
Naquele Lugar Sagrado, magnífico, aproveitei para escrever e enviar algumas mensagens, uma forma de partilhar a felicidade daquele momento, indiscutivelmente mágico.
Estava na altura de comprar os “souvenirs”, os “cadeau”, alguns já prometidos antes da partida.
Junto com o P.C. e a Lálá, entrámos primeiramente num café para beber uma água, antes de nos perdermos naqueles infindáveis espaços comerciais.
Já com as compras feitas, eis que cruzamos novamente com o casal visto no lugar onde tiramos as fotos de grupo.
Em tom de brincadeira lá lhe fiz um novo comentário sobre a dita pose para a foto tirada.
Perguntou-me a senhora de onde eu era, respondi com seriedade.
- Vivo no litoral Alentejano, mas sou Beirão, natural do distrito de Castelo Branco, disse-lhe.
- Também eu sou da Beira Baixa, respondeu-me.
- Pois fique sabendo que nasci numa das mais bonitas vilas da Beira Baixa, Penamacor.
- Também eu nasci em Penamacor.
Fiquei admirado, fiz um breve exercício de memória, mas honestamente, não consegui relacioná-la com alguma família minha conhecida, da minha terra natal.
- Sou irmã do falecido Domingos Fruta.
Senti um embargo na voz, falei-lhe da amizade que nos uniu, das intensas e loucas noites, "de ambiente baco-gastro-tertuliano” vividas no Café Central, restaurante snack bar "O Poço".
…Ai se aquele balcão na cave em forma de ferradura falasse!!!...
(o ex-libris daquele saudoso mítico espaço).
Os copos que bebi, os petiscos que comi, nos meus tempo de estudante, com o pai de ambos, O Ti Júlio Fruta, a altas horas da madrugada, ouvindo histórias da vida, uma vida árdua de labuta, na sua humilde casinha, de porta sempre escancarada de par em par, para os amigos e conhecidos.
Abraçou-me, a custo contive as lágrimas que se quiseram ainda escapar, só depois de "Fiquem bem, Até um dia", reparei que nem o nome lhe perguntei.
Já mo disse uma sobrinha, filha do Domingos Fruta, a Anabela, RibeiradaBazágueda Penamacor, Portugal, 40º9'23.40''N ; 7º4'57.40''W, o seu nome é Bárbara.
Ti Júlio Fruta, Domingos Fruta, onde quer que estejais, um dia far-vos-ei companhia.
Como este Mundo é tão pequenino.
Chega a hora de almoço, partimos à procura de um poiso para comer.
Com uma primeira paragem num restaurante á beira rio, no dia apenas tinha serviço de refeições para os funcionários, acabamos por
assentar arraiais em Bétharram, num restaurante com uma esplanada no quintal, quase lotada.
Muitas árvores, muita sombra, um local agradavelmente fresco.
Uma bonita e simpática funcionária juntou as mesas necessárias ao número de elementos do grupo.
Comemos e bebemos bem, barato, coisa nem sempre fácil por aquelas bandas francesas.
Exigia-se comer bem, porque tínhamos pela frente longa e penosa tirada, por caminhos agrícolas, demasiadamente estreitos, cruzámos com dezenas de ciclistas a pedalar nas suas bicicletas, e a duríssima subida ao Col du Soulor.
As equipas oficiais que vimos a treinar à séria esta subida, para a volta a França que começava daí a dias. Dureza pura.
Doía só de olhar aqueles rostos com as marcas no limite do esforço.
Lá bem no alto, mais uma foto numa paisagem fenomenal, daquelas tais que ficam na memória para todo o sempre.
Não sei se por inspiração divina, ou algum aperto estomacal, resolveu a Lálá comprar um valente naco de queijo, de superior qualidade, uma teca de bejecas, e partimos rumo ao lago de Estaing para fazer um pic-nic.
Como não há bela sem senão, os seis, sete últimos quilómetros antes de chegar ao lago foram de exigente condução. O caminho tinha sido asfaltado havia pouco tempo, e "polvilhado" com gravilha grossa, solta e perigosamente pontiaguda.
Gravilha que originou um furo no pneu traseiro da mota de um companheiro.
A mota do meticuloso Q.F.
Rodou algum tempo sem se aperceber do furo, foi o companheiro que circulava na sua roda que o avisou.
Sem entrar em grandes pormenores, se tivéssemos de cumprir com toda a metodologia Q.F. ainda agora lá estaríamos para remendar o pneu. A mota não ficou junto ao lago, nem… as cervejas nem o queijo. E, não foi preciso a ajuda de todos, o Homem do Caminhão-Tir junto com o Nosso Grande Comandante, partiram mais cedo ao encontro dos desejados banhos de vapor.
Afinal, uma bejeca sempre se bebe em qualquer lugar...
Chegados ao parque do hotel, um enorme quintal, onde andavam à solta uns galináceos, que deliciosa cabidela teriam proporcionado, na sua habitual inspecção rotineira de fim de viagem, repara o A.B. que o mínimo traseiro estava fundido. Coisa simples, disse-lhe: uma chave Philips, vidro fora, lâmpada substituída, vidro no sítio, problema resolvido.
Mas então, por vezes até penso, que alguns companheiros das duas rodas preferem um braço partido a uma esfoladela na mota, tais são as advertências que fazem antes de qualquer simples intervenção.
Poupam-nas e estimam-nas tanto, que lhes agudizam a vontade de se atirarem ao tapete.
Dividido o grupo quanto ao local para jantar, uns optaram pelo restaurante do hotel, outros repetimos o local do dia anterior, o bom trato e a simpatia dos donos mereceu a segunda visita.
Antes de recolher ao quarto, tempo ainda para beber a tal "da sossega" a ouvir a água correr por aquele rio abaixo.
Que melodia tão encantadora e tão relaxante.
Quando me fui deitar, reparei que o quarto não tinha sido limpo, apenas puxaram as orelhas aos lençóis… ah franceses de uma figa.
Quinta-feira, 24-06-2010
Luz Saint Sauveur – Bilbao
Tal como no dia anterior, o pequeno-almoço estava pobre.
Dois companheiros revelam estar cansados. O vapor nem sempre relaxa, parece que também cansa. Altera-se o percurso, "fugimos" à estrada mais sinuosa, perdemos a paisagem mais bonita, dos "Pyrénées Atlantiques".
Decide-se seguir por estrada nacional até Pau, e daí até Biarritz, por auto-estrada.
De pouco valeu combinar a velocidade cruzeiro.
Com o P.C. na cabeça do grupo, rolámos a mais de 30 quilómetros acima do legalmente permitido. Só quando paramos para atestar as motas numa estação de serviço, um camionista português, nos informou dos limites de velocidade, 130 Km/h e do rigor usado pela polícia: tolerância zero.
A sorte acompanhou-nos, sem multas, mas, seguimos viagem a respeitar os limites impostos.
Os sinais alertam-nos para o final de auto-estrada próximo e o pagamento de portagens.
Foi uma confusão o pagamento das portagens.
Não se vê um “portageiro”. As máquinas avisam:
- Introduza cartão ou dinheiro.
Baralham-se com uma facilidade tremenda!!!.
As filas para pagamento eram intermináveis e ruidosas, as buzinas faziam-se ouvir.
As vezes que me lembrei da minha prática e funcional via verde.
Chegada a Biarritz, paragem na praia Grande.
Dá o J.R. dois passos e acha uma carteira. Ficou aflito, apenas queria saber onde era a esquadra mais próxima para fazer a entrega. Nem se atreveu a abri-la. Mas há quem seja assim.
De repente, aparece sem saber de onde, alguém aflito, dizendo ter perdido uma carteira. Confirmados os dados e a identidade do sujeito, lá ficou o J.R. mais aliviado e contente pela boa acção tida.
Partiu o felizardo, sem proferir um Obrigado. Cabrão.
Veio-me à memória, um “alívio carteiral” de que fui vítima em Madrid. Comigo a "sorte" do felizardo poderia ter sido outra.
Retomada a viagem, agora pelo percurso previamente definido e quase sempre junto à costa, com o mar à vista. Um percurso lindo.
D932 – S. Jean de Luz – D 912 – N1 San Sebastian – A 8 – N 634 – Zarautz – N 634 Deba – G 1638 – Bi 3438 – Lekeitio – Bi 2235 – Gernika – Bi 635 – Bermeo – Bi 631 – Bilbao-
Contudo novo azar estava para acontecer.
Decidimos atravessar San Sebastian por dentro. Todos no grupo sabem as regras, e como se deve andar dentro das cidades.
Ao pararmos numa estação de serviço, à saída de San Sebastian demos por falta do Q.F.
Têm por hábito fazer os “seus” percursos. Já ninguém estranha a sua ausência. Porém, repara o P.C. que tinha uma chamada no telemóvel não atendida. Era do Q.F.
Liga o P.C., o Q. F. já não atendeu. Está em movimento, concluímos. No entanto deixou mensagem no voice-mail a dizer a localização da estação de serviço onde estávamos parados, à espera dele. Havia que aproveitar o tempo para comer e beber qualquer coisita fresca.
Lá apareceu o Q.F.
Soubemos então que tinha caído, jogou-se à traseira de um carro, um carro conduzido por uma elegante senhora, que arrancou e parou.
Há distracções que não são permitidas, muito menos em duas rodas.
Felizmente que os danos não foram além de umas desconfortáveis dores de momento, e as indesejáveis marcas do asfalto nos plásticos da mota, sempre dispendiosas.
Com o Homem do Caminhão-Tir a barafustar pelo excessivo tempo de paragem, mais uma vez com o pensamento nos ainda longe adorados banhos de vapor, aqui talvez com alguma legitimidade, transpirou com’o caraças numa rotunda, onde andou aos papéis com uma derrapagem de rota traseira não prevista, seguiu o grupo, já completo, viagem.
São e salvos chegámos todos a Bilbao ao Barcelo Hotel Nervion.
Saudações Motards
Zé Morgas
(continua...)

3 comentários:

  1. Zé, Meu caro Amigo,
    Hotéis em obras, restaurantes atestados, camas por fazer,carteiras achadas e devolvidas sem agradecimentos - em dois dias seguidos leio 2 "cabrão" e pelo mesmo motivo, falta de gratidão para quem acha e entrega, de dois beirões do concelho de Penamacor... - jogar-se "às traseiras" de uma senhora que arranca e para, com danos nos plásticos e uma viagem lindíssima em que desejaria ter estado também.
    Bem hajas por esta partilha magnífica, que nos torna felizes contigo.
    Abração.

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  2. Esqueci-me de avisar que as datas, dias da semana e de mês, não coincidem!!!
    A viagem não foi em Junho?!

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  3. Olá Professor Serrano
    É verdade, a viagem foi em Junho, enganei-me no mês: é 6 e não 7.
    Honra-me ser corrigido assim.
    Deixa-me a certeza, que o Professor lê com a mesma atenção estes meus textos, como quando lia e corrigia os ditados dos meninos daquela turma da quarta classe a que pertenci. Nada lhe escapava.
    Ossos do ofício que não se largam.
    OBRIGADO PROFESSOR SERRANO

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