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sexta-feira, 19 de março de 2010

Dez anos

E já lá vão dez anos.
Foi no dia 19 de Março de 2000.
Estava um soalheiro dia de Inverno, a adivinhar a Primavera que chegaria daí a dias.
Desde o Magusto de 1999, que o Grupo Mototurismo Litoral Alentejano, tinha a promessa da oferta feita pelo dono do “Bar do Monte”, em Ermidas, de um porco no espeto, para fazer uma festa. Já muitas se lá tinham feito, com muito abuso à mistura, reconheço.
Sem me recordar com exactidão do número de presentes, lembro-me que compareceu muita gente. O local era convidativo à realização de agradáveis festas, que invariavelmente começavam cedo e acabavam tarde, e em verdade sempre bem regadas. Naquele Domingo cheguei por volta das onze da manhã. As noites de sábado eram sempre demasiado longas…
Carne, pão, azeitonas, vinho, cerveja, tudo com fartura para satisfazer todos os gostos.
O grelhador e a máquina da imperial entraram em acção.
Comeu-se e bebeu-se…
Foi-se o sol, cedo chegou a noite, e com ela o frio. Começam então os primeiros companheiros a regressar a casa.
O meu telemóvel tocou. Seriam quase 19 horas.
Olhei o número, era de um companheiro das motas e ouço:
- O Matos e a mulher, foram à berma e caíram, entre a Cova do Gato e a Abela.
- Vamos já para aí, disse-lhe, sem querer saber mais pormenores do que tinha acontecido.
Avisei os presentes do sucedido, e, partimos seis motas ao encontro do companheiro e companheira, caídos.
Ao passarmos no lugar, os “Boticos”, em velocidade moderada, seguia eu na retaguarda do grupo, numa curva à direita, com lomba, súbito vejo um cão, latagão, atraído pelo barulho das motas, vindo do lado direito, onde existia uma "venda", e se encontravam algumas pessoas.
Instintivamente tento corrigir a trajectória, procurando o desvio para a esquerda, para evitar o embate, mas sem hipótese, o cão meteu-se debaixo da roda dianteira da minha mota e atirou-me ao tapete de asfalto. Cai desamparadamente sobre o lado esquerdo do corpo.
Sei que por momentos, perdi a noção do que tinha acontecido e o que estava a acontecer.
Com o capacete enfiado na cabeça, começo a ouvir uma voz amiga: têm calma, não te mexas muito, já pedimos socorro.
Lembra-me de ter dito, muito combalido:
- Filho da puta de cão, e um chorrilho de impropérios que a própria existência humana poria em causa.
Ficaram admirados, soube depois, na realidade, o cão ou cadela, nenhum deles viu.
Chegada a ambulância, fui transportado para o Hospital do Conde do Bracial, em Santiago do Cacém, recordo ainda as palavras que ouvi de um dos bombeiros que me colocaram na maca:
- O cabrão é pesado.
Como tinha razão. Pesava umas gramas acima de umas respeitáveis sete arrobas.
Prestados que me foram os primeiros cuidados, foi-me dito que tinha fracturas múltiplas nas costelas, clavícula e omoplata esquerdas, e ainda, o baço partido. Tinha que seguir de imediato para Setúbal.
Porque viajava devidamente equipado, arranhões nem um. O fato e as luvas de cabedal, resistiram ao deslizar sobre o abrasivo asfalto.
Fui parar ao Hospital de São Bernardo, e fui direitinho para a sala de operações.
A operação decorreu durante o final do dia de domingo e início da noite de segunda-feira.
Apenas “dei por mim” já na terça-feira.
O choque foi brutal:
Deitado numa cama, com uns artefactos pendurados, tubos e tubinhos a injectarem-me soro nas veias, um enorme penso sobre a barriga a cobrir os pontos, algaliado, meio tonto…
Uma enfermeira ao meu lado, serenou o meu estado e respondeu ás minhas interrogações. Tudo tinha corrido bem, agora era uma questão de repouso e tempo para sarar as fracturas dos ossos.
Disse-lhe que nesse sábado próximo casava um amigo meu, e que queria ir ao seu casamento. Queria beber uns Swings, perguntou-me o que era, o meu whisky de eleição, respondi-lhe.
Riu-se, recordo-me.
Mas a vida prega-nos partidas.
Duas ou três noites depois, ao raiar do alvorecer, numa das rotineiras visitas que o pessoal de serviço faz, uma enfermeira dá comigo a tremer de tal forma, que até a cama abanava. Chamou ajuda, e eu, prostrado ali naquela cama, ouvia já longe uma voz aflita que dizia:
- Oh Meus Deus o rapaz vai-se embora, o rapaz marcha. Esta pneumonia leva-o.
Porra, a voz era da enfermeira, o rapaz era eu.
Não, não posso morrer, a minha Mãe não merece esse desgosto.
É dor que poderá não suportar.
A pensar na minha Mãe Maria agarrei-me à vida.
Percebi então, Mãe que é Mãe, é Mãe a vida inteira.
Foram três dias terríveis. Já me encontrava deveras fragilizado, agora estava de um momento para o outro, dependente de máquinas, soro, medicamentos e de terceiros para sobreviver. Um gajo como eu, habituado a comportamentos abrutalhados, nem força tinha para erguer um talher e levar a comida à boca. Durante o dia sempre era mais fácil pedir qualquer coisa, que ajeitassem alguma coisa, pedir algo para beber, ou até mesmo ajuda para mudar de posição, dado que a imobilidade forçada durante horas sem fim não só é fisicamente desconfortável, como psicologicamente fica à beira do intolerável.
Das noites, ainda mais sofridas, nem me quero recordar.
A agravar a situação surge um derrame no pulmão esquerdo. Vai mais um furo nesta carne martirizada, e lá ouvia a médica para a auxiliar: o de sessenta não passa, dá cá um de cinquenta e cinco, também não, têm as costelas muito juntas…, lá serviu o de quarenta e cinco, mais um tubo de dreno, mais um frasco no chão… e a ajuda de respiração artificial.
Desgraçadamente nem força tinha para berrar, com as dores sentidas, apenas uns gemidos de um quase moribundo.
Conheci a fragilidade de que somos feitos e que nos ameaça, cruel e sem pré-aviso.
Não sei se tenho medo de morrer ou não, não quero é sofrer, nem fazer sofrer.
Sofrer é uma injustiça.
Foi o meu maior combate de sempre. Que venci, com peças a menos.
Foram vinte e quatro dias hospitalizado e vinte e dois quilinhos perdidos.
A partir daí dei comigo a pensar sobre os imponderáveis da vida, e como tudo pode cair por terra num fragmento de segundo: planos, projectos, sonhos, independentemente do perfil profissional, pessoal ou de outra natureza.
Algumas vezes me vi parado, a olhar a imensidão do oceano, a pensar na importância que realmente devia dar a questões que me assolavam o espírito.
Até então sempre tinha vivido num frenesim de vida, em que estava mais interessado em dar vida aos anos que anos à vida.
Quis rapidamente voltar à minha vida normal. Contudo, nesta fase de convalescença, de baixa médica durante seis meses e meio, arredado do bulício do trabalho de turnos, as noites domingueiras, por vezes tinham a dimensão de uma derrocada. Era precisamente nos domingos à noite, que sentia os momentos mais terríveis da solidão. Quase tudo fechava ao domingo. Quase todos os meus amigos, era o dia que reservavam para a família.
Cheguei a pensar que o peso da solidão mata.
Tinha conhecido pouco tempo antes da queda de mota, alguém muito especial. Sei que é em momentos de fragilidade que por vezes surge a outra metade… senti uma ténue vocação, não suficiente, para amar. Senti da outra parte, uma vocação enorme, mais do que para amar, em ser mãe. Descobri também na altura, que há algo dentro de nós que nos alerta, quando estamos perante aquela pessoa que nos pode completar para o resto da vida. Não senti esse alerta para decidir seguir as leis do coração. Não consegui assumir o amor por essa mulher.
Sempre vivi uma vida celibatária, não abstinente, confesso humildemente.
Jamais quereria vidas duplas e viver de aparências.
Preferi magoar e desiludir algumas pessoas que enganá-las a vida inteira, sabendo que a partir da saída deixava de haver uma porta aberta. Distanciei-me para esquecer.
O frio na alma persistia.
Veio depois, a mais agitada e conturbada época da minha vida. Não sei se vivida loucamente ou loucamente vivida.
Maratonas gastronómicas, conversas de nalgas, rodízios de sexo... e algum trabalho.
Os meus amigos da altura partilhavam os mesmos ideais de vida que eu. Quis o destino, que nos locais que frequentávamos, facilmente encontrássemos mulheres com a mesma moral sexual que defendíamos, e sempre desejosas de fazer sexo mais frequentemente que nós. A dificuldade era somente a escolha, que era vasta, e convenhamos, aos olhos, de muito boa qualidade.
O despe, curte, veste, tornou-se um ritual. Quase diário e sempre variado. Quando a qualidade das eleitas o exigia, havia honras de segunda e mais vezes.
Desbravar corpos era já uma obsessão.
Uma vida de abusos de todo o tipo, vivida sem sabedoria de vida, pecou pela facilidade das soluções fáceis e enganosas, uma vida sem espírito de missão. Foi uma vida de estoiro. Onde alguns estoiraram tudo. Completamente.
Não quero voltar nem aos erros nem aos abusos do passado.
Percebi tarde, mas ainda a tempo, que estava na rota errada para o meu destino.
O tempo tudo ensina, o tempo tudo traz.
Até a verdade.
Voltando ao cão, e como não morri naquele local, cilindrado…
Como nenhum dos meus companheiros viu o cão, várias foram as vezes que ao falar do acidente, os meus companheiros gozassem comigo:
- Qual cão, trazias era uma valente cadela e caiu.
Confesso que por vezes isto me gerava alguns contornos de embaraço, e uma revolta interior que a custo dominava.
Sabia que tinha visto o cão, sabia que me tinha abalroado a roda dianteira da minha mota, jogando-me ao tapete.
Quis mais uma vez o destino, que há bem pouco tempo, nas comemorações das festas do desporto do concelho de Santiago do Cacém, no passeio mototurístico realizado pelas freguesias, parasse o grupo num café na Abela.
Estava no café um familiar do Matos, o outro elemento que caiu no mesmo dia que eu, com uns amigos.
E foi um amigo que me disse:
- Lembra-se de mim? Vi-o no hospital um dia que fui lá ver o Matos.
- Sim lembro-me, aliás já nos vimos ali no café do Pardelha. Disse-lhe.
- Vou-lhe dizer uma coisa. Sabe, eu estava ao pé da velha, a dona do cão, quando o cão foi direito à estrada e se jogou à sua mota e o derrubou. A velha só dizia: Ai Jesus, Ai Jesus, temos que ver onde está o cão e enterrá-lo longe daqui.
Completamente surpreendido pela revelação, chamei os meus amigos L. Granja e J. Morais, que estavam na ponta oposta do balcão do café, e pedi ao senhor, apenas para lhes repetir o que eu tinha ouvido.
Repetiu o dito, e mais disse que a velha foi logo pela manhã cedo à procura do cão, para o enterrar, afim de ocultar a prova. O cão tinha morrido a uns vinte metros do local do acidente.
Um dia far-se-á justiça e estas mentes tão tacanhas, como a da velha.
A verdade com o tempo acaba sempre por surgir.
E, não morri, cilindrado por uma carrinha, nesse local do acidente, devido ao olhar atento de uma Mulher.
Teria sido, talvez a primeira vez, depois do acidente, que tinha ido a Deixa o Resto, à Tasquinha do Ilídio, comer um divinal ensopado de enguias.
Estava a meio do repasto e chega o meu amigo Zé Manel, electricista de profissão, e me pergunta:
- Como vai isso?
- Estou pronto para outra.
- Vou-te contar uma coisa. Antes do acidente, tinhas ultrapassado uma carrinha, lembras-te?
- Tenho uma vaga ideia.
- Era eu, vinha com a minha mulher. Reparei ao passar a lomba em algo na estrada e disse-lhe que estava ali qualquer coisa, quando me começa a berrar: PÁRA, PÁRA que é um homem. Eras tu, caído, enrolado, virado para Ermidas, todo vestido de preto, confundido com o alcatrão.
- A posição em que estava não sei, mas o blusão e as calças eram em cabedal preto. No capacete, tinha e tenho uma faixa reflectora, mas nessa posição não era visível de facto.
- Se a minha mulher não berra ao ver-te, tinhas levado com a carrinha em cima. Não sei como ficarias, ou se ainda cá andarias. Eu fui a primeira pessoa a parar ao pé de ti, sem na altura saber que eras tu que ali estava acidentado. Só depois chegaram os teus companheiros, quando deram pela tua falta.
- Agradece por mim à Senhora tua esposa. Nem tudo pode ser mau na vida.
Ás vezes há horas de sorte.
Tive-a naquele momento. Caído na estrada, partido como estava, tive ainda a sorte de não ser cilindrado por uma carrinha de uma pessoa que conhecia.
Sorte que mais vezes, espero, me acompanhe pelo resto da vida.
Como espero e quero, ainda, encontrar a sabedoria de vida que me conduza à missão da vida que estou a tempo de cumprir, ser feliz, fazer alguém imensamente feliz, partilhar felicidade.
E porque a vida não pode parar, amanhã, sábado, vou almoçar ao Restaurante Casa do Ermitão, em Mangualde.
Situado no alto de um monte, junto ao templo de Nossa Senhora do Castelo, tem vista privilegiada sobre Mangualde e oferece grande diversidade de cozinha regional.
Foi o local escolhido pelo meu comandante de pelotão na recruta, na Força Aérea Portuguesa, para o encontro convívio 2010, dos “Panterinhas”, cognome porque eram conhecidos os elementos do meu pelotão.
Será que um “Panterinha” pode virar ”Eremita”? Ele há coisas…
De Domingo até quarta-feira, ficarei a “giboiar” em Penamacor, no gozo de mais uma merecida folga.
Quarta-feira, logo após o almoço, regresso a Sines, para mais uma jantarada de turno na marisqueira - restaurante “Cais da Estação”, afim de ultimarmos os pormenores da viagem a Madrid, para daí a um mês.
Dia 28, dia grande para os amantes das duas rodas, segunda prova do Mundial de Super Bikes, em Portimão.
Lá estarei. Já tenho o meu bilhete para Bancada A, e que me permite o acesso a todas as outras bancadas.
De 1 a 5 de Abril, estarei em Penamacor.
É Páscoa, e realiza-se a festa em Honra da Padroeira do concelho:
Nossa Senhora do Incenso.
Boa Páscoa, com muita coisinha doce…
Zé Morgas

2 comentários:

  1. Só depois de te ouvir em mangualde,contar este acidente,soube do acontecimento.Quem anda á chuva molha-se Zé,mas ainda bem que tens esse espirito rebelde.
    adoramos o teu Motel Ambulante e os "seus apetrechos".Força Zé,e quando quiseres vir a matosinhos estás á vontade.Para Outubro faremos festa rija,prometo.Sardinhada,marisco e afins,e...vinhaça,da boa.

    Aquele abraço do Matos Martins

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  2. Caro Zé,
    Por este emotivo texto que escreveste com tanto realismo e arte soube doteu "encontro" com um cão que "desapareceu" sem deixar rasto. Uma injustiça a juntar a outra injustiça.
    Foi com pena que te soube aqui bem perto, em perigo de vida e grande sofrimento. Felizmente, a tua força foi mais "forte" e estás aí para as curvas. Todas as curvas.
    Abração amigo do teu velho professor.

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