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sábado, 16 de maio de 2009

UM TRIBUTO AO PROF.

ZÉ DE VASCONCELOS

É quase manhã. Há pouco que entrei em casa. Subi as escadas, julgando ver ainda nas paredes as marcas dos dedos anónimos que as ergueram. Abri a porta, cá dentro, um escuro mais escuro que o escuro da noite, mas povoado do silêncio das respirações e dos sussurros.
Acendi a luz, sentei-me no sofá. Levantei-me, procurei uma caneta e um bloco de papel. Preciso de escrever, tenho que escrever, pediram-me e isso, prometi. Mas o quê? Na minha mente tudo passa vertiginosamente à velocidade da luz. Um torpor hipnótico assalta-me o corpo antes de invadir o espírito e lhe conceder autorização para liberdades impensáveis. Falar de ti, escrever sobre ti. Perdoa-me o atrevimento.
A propósito, Vasconcelos, conhecemo-nos há quanto tempo? Já lá vão quase 27 anos. Passámos muita coisa juntos.
Vasconcelos: o HOMEM, o PROF, o AMIGO.
Seria fácil falar de alguém, bastaria para tal usar uma linguagem “científica”, já que exprime, ou deve exprimir com rigor absoluto, conceitos rigidamente determinados, sem ambiguidades e sem equívocos, meia dúzia de adjectivos enaltecendo outras tantas qualidades, e já estava.
Mas contigo não, por certo não vou escrever nenhum texto com linguagem literária, já que para o ser deve revestir-se de qualidades, mas falta-me a arte. Contudo não deixará de ser uma linguagem correcta sujeita a regras gramaticais. Decerto saberás que eminentemente subjectiva, a linguagem literária não se ajusta a uma realidade externa que a delimita, nem sequer procura exprimir tal realidade. A sua finalidade essencial é representar um mundo de ficção, mundo imaginário que ela cria, mundo ao qual nos transporta e nos faz viver.
Sem dúvida, com efeito, o literato descobre e explora nas palavras sentidos que a evolução semântica tornou obsoletos para o vulgo; ou então relaciona sentidos próprios e figurados dentro dos vocábulos e joga com eles. Assim o leitor vai descobrindo infindas matizes na frase, uma variedade de significações que são um deleitoso divertimento para o seu espírito. Assim és tu.
Quem não recorda ainda hoje aqueles termos, aquela linguagem a que me permito a ousadia de chamar de “ vasconceliana ”, tão rica em figuras e imagens, muitas e variadas. Lembra-me quando subíamos as fornalhas: “ abre-me aí só 1/8 de volta ”, “ é preciso quenchar ”, “abre aí um pintelho ”, “ oííí agora fecha aí só um pintelhinho ”, “ sobe a tempe...” e completava o operador “ ratura ”, dizias logo “ este homem é um cãmpião, bom trabalho ”; expressões estas, que perduram e perdurarão no tempo.
Nos dados, sim, nesses joguinhos que de vez em quando fazíamos. Eram um colorido de estilo. Momentos áureos, curtos, mas de puro lazer e prazer. Já assisti a centenas de partidas, sempre o mesmo, algumas palavras, conjunto de sons articulados, numa linguagem científica que só tem por missão significar; o significado é simplesmente a leitura dos dados, o jogo saído.
Contigo não, as palavras e as frases na sua essência física, isto é, na sequência de sons, surgem como autênticos valores estéticos de carácter acústico. Os arremessos sempre balbuciados: “ seee fores ao baile ”, “ estou a pressentir ”. “ trezentos sessenta ”, “ aiii que ia fooondo ”; a leitura de jogo sempre enfatizada: “ pôôôô ”. “ follio ”. Esses “ follios ” de mão que passavam a “ bife, a tetrafollio, a pentafolio ”, e aquele exclamado: “ já está a jogar para botões de punho ”, uma sequência mínima; “ viiirammmm ”, que já ninguém precisava de ver, todos sabiam que de uma sequência máxima se tratava. “ Já está a jogar com taipais ”, dizias tu sempre que o adversário tirava uma “ vintada ”. E então quando saía uma “ pissada ”, “ há festa na paróquia ”. Se vias o adversário com hipóteses de fechar alguma casa começavas logo “ vai-se atirar do comboio em andamento “, “ não vale, temos que chegar primeiro à estação ”. E oh meu Deus, se a vitória te sorria, com “ mongo ” ou “ chino ”, era a apoteose em delírio com a declaração registada em acta: “ declaro sob compromisso de honra que apanhei um chino ”. “ Vexavas ” os teus adversários. Eras, és um lança mão de significações figuradas.
Como figurados eram, são todos os teus ensinamentos. Todos se recordam ainda da forma como ensinavas...aprendendo. Quem não se lembra daquelas noites de “seca” que a muitos impingiste, atentos mas a morrer de sono, invejando-te a genica. Todos aprendemos contigo, e não conheço ninguém, que trabalhe no etileno ou no complexo, que afirme que nada aprendeu ou aprende contigo, não o digo por respeito, digo-o apenas por ser verdade. És um monstro de sabedoria.
E fora de portas…Eu, particularmente, ente algumas, que foram muito poucas, recordo-me de uma noite bem passada, (visitamos umas “ capelinhas ” para benzer uns canecos!!!), em que falámos horas sobre um belíssimo tema: A alquimia do amor, defendida por ti e a química do desejo defendida por mim. A resistência aos apelos e tentações da carne. De outras coisas falámos. Reparei nessa noite que tinhas um sentido de humor à prova de bala, uma inteligência prática descomunal e uma memória impressionante
Os conselhos que te ouvi, quando regressei do hospital, depois do acidente de moto que sofri. Sofri a bom sofrer. Durante quase três dias, atravessei uma serenidade polar vizinha da morte. É nessas horas que pensamos que realmente não temos o controlo de nada nesta vida. Mas, com peças a menos, safei-me, e cá ando. Sabes que sempre defendi a vida pelo lado epicurista, abusando de certos prazeres, há quem os considere excessos, sabendo que isso pode significar morrer mais cedo. Coisas da vida. Desta vida que nos prega partidas.
Quando vejo mais injustiça que justiça, mais ignorância do que educação, mais crime sem castigo do que castigo no crime, mais negligência do que empenho, mais folclore do que concretização, e acima de tudo mais doença do que saúde, tudo me empurra e encosta mais à forma de vida que tenho levado, que muitas vezes já discutimos, sem que nenhum se torne o dono da razão. A vida é uma ironia, vive-se ao contrário do seu próprio sentido. Sem querer, cai-se na malha do sofrimento sem retorno.
Há sempre esperança, e a esperança pode estar em cada um de nós, mas morre quando nos confrontamos com a realidade. Acreditar é um bonito verbo, mas ninguém acredita no vazio. E a verdade é que por detrás da vida se esconde um enorme vazio. Nem positivo nem negativo: apenas o nada. Se a vida não é nada, não vale o sofrimento que nos faz sofrer. Também não vale a pena morrer. Jamais pensarei ou quererei ouvir algum eufemismo, aquela ironia de dizer coisas tristes de uma maneira suave.
Não, não quero.
Força Vasconcelos, força Amigo.
Sei agora como foi e é um privilégio aprender contigo. Mas sobretudo um prazer jamais enferrujado saborear a nossa amizade. Permiti-me aqui usar no trato uma metonímia, melhor uma antonomásia:
És o nosso PROF.
O PROF. do etileno.
Fica bem.

Zé Morgas

2 comentários:

  1. Belo texto de quem trata a LP por tu. Bendito o Professor que construiu o Aluno e o Amigo. Sorte a minha... Também fui professor - com p pequeno - do autor da prosa. Entrei sem pedir licença e prometo voltar. Agora... já sabes quem sou. E quem és tu?
    Aqui fica o abraço de parabéns!

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  2. Oi Morgas...
    Desta vez deixaste-me "estupidamente" surpreso e sem palavras. És ralmente uma caixinha de supresas!
    Que excelente texto, pela forma, pela linguagem mas, sobretudo, pelo conteúdo.
    A retrospectiva que fazes da tua vida, a forma como descreves a tua relação com o Vasconcelos e sobretudo o "retrato" que dele transmites é FABULOSO!
    Não vivi convosco o dia a dia do complexo, nem os episódios que sempre acontecem em qualquer fábrica, que tão bem retratas, mas vivi muitas noites no Clube na vossa companhia.
    Falar do Vasconcelos, depois de tudo o que escreveste, seriam palavras ocas e sem sentido comparadas com as tuas.
    Retratas na perfeição o Homem, o Amigo que conhecemos.
    O Homem do "estrunfe jogador" (João Moutinho), da "Maria Amélia" (Nuno Gomes), do "arrebenta canelas" (Jorge Costa)... do tabú ( de que clube é o Vasconcelos)...das bifanas feitas pela Dulce que, de tanto piri-piri que tinham mais ninguem conseguia comer (o Granja e o Andrade que o digam), da confusão lançada no King com o Coelho e o Soares... o apreciar das miniaturas e engenhocas do Sr. António...enfim, uma imensidão de vivências nas grandes noites que passamos no Clube e que, indelévelmente fazem parte da nossa vida.
    Sei que o Vasconcelos vai sentir Orgulho, muito Orgulho, de ter um AMIGO como tu!!!!
    Continua a escrever... dá um abraço meu ao Vasconcelos e para a semana.....
    Bebemos uns copos!!!!
    Um Abraço tambem para ti

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