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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

São Xisto

As expectativas eram grandes para este passeio.
O local anunciado como paradisíaco, no Alto Douro Vinhateiro, Quinta de São Xisto, na aldeia de São Xisto, paredes meias com a estação de comboio da Ferradosa, concelho de S. João da Pesqueira, estava à nossa disposição entre os dias 3 a 5 de Setembro.
Sexta-feira
Com o pequeno-almoço combinado ás oito da matina, dia três, na pastelaria Celeiro Doce, desta vez chegou em último, quem por hábito chega quase sempre em primeiro: o H.M.
Sentiu a importância de ter tanta gente à sua espera.
Com o trajecto marcado e sem local para almoço definido, fez-se o grupo à estrada.
Santo André, Grândola, Alcácer do Sal, Marateca, Coruche, Almeirim, Golegã, IC 3, N 110, Penela, Condeixa, Coimbra, Casal da Misarela.
Paragem para saciar a fome e a sede, que começavam a apertar.
Era ideia da maioria, comer algo ligeiro, seguir viagem, e desfrutar a piscina da Quinta à chegada. Entrámos no Restaurante “A Mariazinha”, com bonita vista da varanda, sobre o Mondego.
Sem querer entrar nos detalhes do que foi escolhido e servido, apenas fiquei com uma certeza: Sempre que por aquelas bandas passar, tudo farei para ali voltar a comer.
A comida, qualidade e quantidade, de nota máxima. A certificá-lo, os inúmeros quadros pendurados nas paredes, de uma sala simples, com dizeres de gratidão.
Saciados e hidratados, partimos via Penacova, com destino a Tábua. À nossa espera estava o PC e a Lálá. Tinham partido na véspera.
Reunido o grupo na totalidade, tomada uma bebida fresca numa esplanada no largo central, e nova partida até ao destino eleito.
Viseu, Sátão, Vila Nova de Paiva, Serra da Lapa, Tabuaço, Pinhão, S. João da Pesqueira, Aldeia de São Xisto.
Com quinhentos e muitos quilómetros andados, e a cerca de três da Quinta de São Xisto, parámos no restaurante Soto Queimado.
Afinal, soube, era ali que iríamos jantar. Sabia apenas desde a partida, que o prato escolhido pela maioria para o jantar desse dia, era cabrito assado no forno.
Combinada a hora para servir o jantar, seguimos para a Quinta.
A Quinta de São Xisto repousa numa encosta dum monte xistoso, estendendo-se até ao Rio Douro, convivendo e repartindo o espaço perfumado pelas vinhas de Vinho do Porto, com a Aldeia de São Xisto, bem no coração do Alto Douro Vinhateiro.
Ali, ao ver o acesso à quinta começaram os “medos” do Homem do Caminhão-Tir:
- Como vou subir? Como vou descer? Interrogava-se em voz alta.
Com calma e cautela lá subiu até à casinha que lhe estava destinada.
As Casas da Aldeia estavam abandonadas e completamente deterioradas, servindo apenas para arrecadações de palha, de utensílios e máquinas para a agricultura.
Nas obras de restauração das casinhas, foram empregues técnicas de construção artesanais, como o entalhamento da pedra de xisto, para preservar e restituir a traça original das casas.
Apesar do seu aspecto rústico e tradicional, as casas foram dotadas, no seu interior, de todo o conforto necessário à vida contemporânea.
O que se observa das casinhas da Quinta, é único e inesquecível.
Para evitar que o grupo tivesse de andar de mota à noite, pôs o Mário, filho do dono da Quinta, um jipe à nossa disposição:
Um Toyota Land Cruiser BJ 40, vermelhinho.
Foi de jipe, fui o condutor de serviço, relíquias exigem cuidados de condução extras, que nos deslocámos até ao restaurante Soto Queimado.
A mesma felicidade do almoço. O cabrito impecavelmente confeccionado, regado a pinga da melhor; simpatia a rodos dos donos do restaurante.
Findo o jantar, satisfeitos e alegres, encomendámos o pequeno-almoço para o dia seguinte, sábado, e urgia seguir até S. João da Pesqueira, curtir a “night”.
Éramos dez no grupo. Seis pilotos, outras tantas motas, e quatro penduras. A lotação do jipe é de sete lugares. Decidiu-se fazer duas viagens, por uma questão de conforto.
Foi a mais louca viagem para algumas e alguns elementos do grupo. Nunca tinham andado de jipe sentadas / sentados em bancos laterais, por estradas tão serpenteantes como aquela, e com perigosas íngremes ravinas até ao rio. Metia respeito.
Evito-me à transcrição dos ais e suspiros ouvidos, e dos “sustos” vividos nos “adernanços” das curvas. E não ouvi só vozes femininas.
Sem razão, mas o medo têm lá porras.
Decorreu entre os dias 2 e 5 de Setembro, mais uma edição da “Vindouro” em S. João da Pesqueira, que acolheu o evento, num local que é Património Mundial da UNESCO. Dezenas de produtores, de Vinho do Porto e DOC Douro, estiveram reunidos, durante quatro dias, no Parque de Exposições de S. João da Pesqueira, dando à prova os seus vinhos.
Bastava para os provar, comprar um copo alusivo à edição do evento, fornecido com uma sacola para o transportar ao pescoço, e saborear à “tromba estendida” todos os deliciosos néctares ali expostos.
Cumprimos fielmente, sem olhar a minguas, com a nossa imperiosa obrigação.
Elegemos entre o grupo, como o melhor, um Borges, vintage, colheita de 2007.
Erradamente sempre associei vintage à idade do vinho. Finalmente fiquei a saber que vintage, diz-se de ou vinho fino de uma só colheita, produzido em ano de reconhecida qualidade, com características organolépticas excepcionais!excecionais, retinto e encorpado, de aroma e paladar muito finos e que seja reconhecido pelo Instituto de Vinho do Porto ao uso da designação de vintage.
No centro histórico, os visitantes puderam encontrar expositores de produtos tradicionais durienses e divertir-se com animação de rua que recuperou a época (século XVIII) de uma das figuras mais proeminentes da região: o Marquês de Pombal.
Nessa noite, no palco erguido em frente ao anfiteatro, ao lado do Parque de Exposições, actuou a fadista Ana Moura.
Foi a primeira vez que a vi e ouvi ao vivo. Gostei, e principalmente da letra “Leva-me aos fados”. Sem que o esperasse, “bateu-me” fundo na Alma. O fado, o vinho, Vinho Do Porto. Recordações de outros tempos…
Ouvi-la é um afago para a alma.
A sua voz é densa, delicada e agridoce, com um timbre de suave queixume que seduz.
Regresso à Quinta.
Agora, todos de uma só vez no jipe. Era sempre a descer. Três à frente, sete à molhada lá atrás, não sei o que aconteceu, a estrada não me permitia distracções, ouvia somente uma orquestra de lamuriantes sons desarticulados. Compreendios. Mas tudo chegou salvo à Quinta.
À Quinta tinha chegado também, havia pouco tempo, o Mário.
Apresentação e cumprimentos feitos, obsequiou-nos com um néctar do Porto, com sessenta anos. Para mágoa sua, apenas os duros do costume aceitámos.
Perdoem-me o meu egoísmo mas agradeço aos que resolveram deitar-se cedo.
Que néctar!!! Ah Linda loira, que néctar digno de partilha lá no Olimpo das Musas. Dividido por menos, as porções foram maiores.
Uma outra garrafa com metade da idade, ainda abriu. Honrámo-la igualmente com suave passagem pelo palato.
Obrigado minhas companheiras e meus companheiros de viagem, pela vossa precoce retirada até ao vale de lençóis.
A noite estava bela. Estrelada. O silêncio, absolutamente encantador.
Recolhi, já tarde, aos meus aposentos, a Casa do Caseiro.
Sábado
Contudo, acordei cedo, com um “despertador” que há anos não ouvia: um galo a cantar.
Mas, virei-me para o lado e embalei para mais uma confortante horinha de sono.
Hora de levantar, banhinho tomado e há que ir “esforricar” o pequeno-almoço.
Durante o pequeno-almoço, decidiu o grupo o percurso e os locais para visitar.
Primeira paragem, Alto do Vargelas.
Dali se observa, com vista privilegiada, toda a quinta de São Xisto, e a grandiosidade do rio num quadro de rara beleza.
Naquele miradouro esteve Moita Flores. Está lá o registo da sua passagem, gravado numa pedra de xisto.
Continuamos e nova paragem: Castelo de Numão, também conhecido por Sentinela do Douro. A vista é soberba, e as ruínas intramuros dão uma noção do traçado do antigo aglomerado ali existente.
Fez o grupo há já algum tempo, um passeio de barco, da Régua até ao Pocinho, com almoço no restaurante Senhora da Ribeira, na Quinta da Senhora da Ribeira. Têm uma localização esplêndida, à beira do Douro, com o cais ao pé e a quinta do Vesúvio em frente. Têm uma emente farta e variada, e sempre a possibilidade de confecção por encomenda.
A pensar naquele belo passeio de barco, decidimos descer até à estação do Vesúvio, para rever a Quinta da Senhora da Ribeira, o restaurante, o cais, o rio, da margem oposta.
Com o estômago a pedir algo sólido, resolvemos ir até à estação de Freixo de Numão / Mós do Douro, e descobrir pelo caminho, poiso onde assentar arraiais para dar ao dente. Caiu a escolha no Restaurante Bago D’Ouro, no largo da estação de Freixo de Numão.
Pediu a maioria do grupo mão de vaca com grão. A primeira decepção.
O grão estava bem apaladado, mas a mão de vaca tinha ficado no talho da freguesia.
Valeu a pinga, um Douro Doc, Pina Olinda, Malvasia Fina 2008.
Valeu igualmente o passeio de mota por aquelas estradas com o rio à vista onde se misturam fragas agrestes, socalcos vinhateiros e solares nobres. Um passeio no meio de um cenário grandioso, que entusiasma até o mais empedernido adversário das estradas secundárias, o nosso Homem do Caminhão-Tir.
Com o bandulho cheio, e alegando que o corpo exigia descanso, começou alguém a dizer que queria regressar rápido à Quinta.
Percebi o chamamento “piscinal”.
Tinha proposto ao grupo almoçar em Carviçais, Torre de Moncorvo, no Restaurante O Artur, seguramente um dos restaurantes mais conhecidos do país pela fama que a sua pujante posta, à mirandesa, ganhou. Uma visita sempre merecida.
Porque me apetecia andar de mota, resolvi que ia lá beber uma imperial. Acompanhou-me apenas o J.R. Ficou a conhecer um novo espaço, de referência.
No regresso à Quinta, paragem para abastecer as máquinas em Vila Nova de Foz Côa.
Quase a chegar à Quinta, ao final da tarde, encontro alguns companheiros em saudável passeio pedonal, a caminho do restaurante Soto Queimado. Parei.
- Trás o jipe e vêm beber uma fresquinha connosco, disse-me o A.G.
- Ok, tempo apenas para um refrescante rápido duche.
Já na esplanada do Soto Queimado, fiquei a saber que o P.C. tinha decidido ir de mota para S. João da Pesqueira. Aligeirava assim, a carga ao jipe e espaço aos utentes.
Onde tinha jantado há uns tempos atrás, apenas se lembrava o A.G. que era numa rua inclinada e tinha uma árvore em frente. Palmilhou uns quilómetros à procura do dito espaço, e nada encontrou.
Com os poucos dados recordados, perguntou a um transeunte se conhecia um restaurante situado na zona descrita.
-É a Casa Regional O Forno. Que sorte. Era o que procurávamos. Para lá nos dirigimos, encaminharam-nos para o primeiro andar e sentámo-nos em duas mesas divididos em dois grupos.
A moça de serviço à minha mesa, era o seu primeiro dia de trabalho. Novinha, bonita, bastante simpática.
Pedimos sopa e bacalhau para quatro. Dada a sua inexperiência levou a ementa para mostrar na cozinha a escolha feita. De bradar.
Na mesa ao lado acabaram os nossos companheiros por pedir bacalhau também.
Quando chega a primeira travessa de bacalhau, um companheiro da mesa ao lado, armado em “galifão”, abotoou-se.
Mas ele há dias de azar.
Mal começaram a comer, alguém se queixa, uma posta de bacalhau estava com um cheiro intenso e horrendo. Foi devolvido. Tudo correu mal, um jantar para esquecer, um lugar a riscar dos meus circuitos gastronómicos. Que falta de tudo…
Voltámos ao Parque de Exposições, nada melhor que provar mais uns deliciosos “vintages”.
Encontramos os simpáticos donos do restaurante Soto Queimado, contamos-lhe o sucedido, disse-nos que deveríamos ter ido ao Restaurante Cantiflas.
Fica o registo para uma próxima visita.
Domingo
Dia de regresso. Um último olhar sobre a maravilhosa Quinta de São Xisto e o Rio Douro para gravar um bonito quadro no baú da memória.
Pequeno-almoço tomado e novamente na estrada.
Penedono, Trancoso, Celorico gare, Guarda, Sabugal, Serra da Malcata, Meimão, Meimoa, Penamacor.
Hora de almoço.
Tinha encomendado um ensopado de javali para a maioria do grupo, no restaurante o Jardim, do meu Amigo Manel, carinhosamente tratado por “Venetas”.
Parqueámos as motas frente ao Museu, descemos a escadaria, onde estão expostos uns bonitos painéis de azulejos, que dá acesso à Selva da República, jardim no meu tempo de meninice, e entramos no restaurante.
Ali estava a mesa, reservada, à nossa espera.
Escolhi uma pinga da Quinta dos Termos, tinto Doc, para acompanhar.
Estava tudo divinal, sem pecado. Superou-se. Propício a alguns abusos.
Feita uma curta visita ao museu, altura de despedida de Penamacor, com uma bebida fresca na cafetaria do Quartel. O calor estava abrasador.
Era tempo de partir.
Pedrogrão de S. Pedro, S. Miguel D’Acha, Escalos de Cima, Castelo Branco, A 23, estação de serviço de Vila Velha de Ródão. Paragem. Havia que atestar as motas e hidratar os corpos. A temperatura rondava os 36 graus.
Ponte de Sor, Mora, Montemor-o-Novo, nova paragem na esplanada do restaurante O Bacalhau. Os corpos exigiam líquidos. Ouviam-se os queixumes:
- Não pode ser, não se pode comer tanto, almoços assim nunca mais, está muito calor… e outros desabafos que conheço já de cor.
Não ligo aos queixumes, mas comungo os exageros praticados. Quero lá saber.
Os exageros fazem parte do prazenteiro sofrimento que é andar de mota, que depressa passam. Difícil de entender, sei.
Todos conhecem aquela velha e estafada máxima, cujo autor desconheço:
Não tento explicar ás pessoas porque ando de mota.
Para os que compreendem, nenhuma explicação é necessária.
Para os que não compreendem, nenhuma explicação é possível
”.
Prova disso, é que têm já o grupo novo passeio agendado, para meados de Outubro, lá para as bandas de Aveiro, certo de que os abusos continuarão e os queixumes far-se-ão eternamente ouvir.
De Montemor-o-Novo até casa, foi rolar sem parar. Uma beleza de passeio.
Termino com uma linda frase que li no FB da minha Queridinha Amiga Pipah:
Para quê levar a vida tão a sério, se a vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos”.
Até lá…
Quero continuar a andar de mota, porque a andar de mota, penso em …, murmuro o nome…, curto a Natureza; não sou eu, Sou Feliz.
A todas e todos,
Boas Curvas.
Zé Morgas

1 comentário:

  1. Uauuu!!! Que circuito! Ficará algum canto da Península - da Europa?! - por conhecer?
    Rouxinol com asas, felizmente não "quebradas"!!!
    Parabéns!
    Boas viagens! Muitas!!
    Parece que há festa lá nas nossas terras, nomeadamente Águas, com motas e carros... no fim de semana que se aproxima.
    Vais?
    Abração.

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