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domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Encalho


Como combinado em Azenha do Mar, o ponto de encontro foi na terra do Capitão Espargo, na pastelaria Serra.
Confesso que para tomar o pequeno almoço prefiro as bifanas na tasquinha do Diamantino ou as sandochas de presunto pata negra na cervejaria Covas.
Ausência notada, a de dois companheiros de peso e respectivas penduras, o P.C. e o A.G. e o insubstituível Q.F.
Partiu o grupo sem destino marcado para a useira paragem antes do almoço. Tal veio a suceder em Brinches, uma pequena freguesia do concelho de Serpa.
Ainda nem todos tinham parqueado as motos e já o Capitão Espargo perguntava a um compadre onde se poderia beber um branquinho da melhor qualidade.
Ali mesmo, disse o compadre alentejano e apontando para a entrada de um café na praça central.
Três branquinhos da Vidigueira e três pastéis de bacalhau, caseirinhos acabados de fazer, foi o primeiro pedido.
- Quanto é, perguntei.
- Um euro e setenta, disse-me a simpática moça que estava atrás do balção.
- Não há engano? Quero pagar  os três pastéis e os três copinhos.
- Não, está certo, tudo é um euro e setenta.
Mandei servir nova rodada e paguei as rodadas consumidas.
Chegou entretanto o Nosso Grande Comandante e a pendura.
Um branquinho, um pastel de bacalhau e um bolo seco para a pendura foi o pedido.
- Quanto é, perguntei novamente.
- Um euro e quinze.
Paguei, completamente admirado com os baixos preços praticados.
Fiz um figurão com pouco dinheiro.
Pelas tascas de Santo André, o valor cobrado não chegaria para pagar sómente os pastelinhos de bacalhau, e, de quase certeza de inferior qualidade.
Eu e o Capitão Espargo, enfardamos cada, três copinhos e três pastelinhos para aconchego do estômago.
Ao olhar aqueles copos veio-me à memória as tabernas da minha terra, que foram muitas, recordo parte delas por onde fiz algumas rondas em moço jovem:
- Seguro, pertença do tio do futuro candidato a Primeiro, Pouca-Tripa, Miau, Robalo, Abreu, Ginja, Bolas, Manas Irenes, Benjamim, Galo, Ti Emília..., dizia-me o meu avô que chegaram a ser quarenta, onde os ditos eram apelidados de “copinho de três”.
Nova partida.
Foi com enorme prazer que a rolar, com o sol a brilhar e a temperatura o rondar os onze, doze graus, condições ideais par curtir passeios de mota, observamos os campos tratados, verdinhos e frescos pelos montes a perder de vista.  
E oliveiras... muitas oliveiras, alinhadinhas em carreiros, que nunca mais acabavam.
Viagem sem as frequentes peripécias do Nosso Grande Comandante é coisa impensável.
Já em Moura, seguia eu na cola da roda traseira da sua potente Kawasaki, prima da minha, constato que abre pisca para a direita, porque essa modernice do GPS assim lhe indicou. A rota era em frente, buzinei-lhe, tal como outros companheiros, sinais de luzes, mas qual quê, a habitual distracção na condução impedem-no de estar atento aos sinais que da rectaguarda lhe são enviados. Sonoros ou luminosos, nada ouve nada vê... seguiu o seu caminho.
Atravessámos Moura, tomamos a direcção de Póvoa de S. Miguel, e chegados a Amareleja ao restaurante “O Encalho”, para surpresa já lá estava o Nosso Grande Comandante.
Quando a fome aperta sempre é melhor “atalhar” por estradas nacionais que por vias municipais.
O espaço do restaurante “O Encalho” é acolhedor e simples, com decoração rústica, de ambiente informal, muito familiar e confortável.
Com a mesa previamente reservada, e devidamente composta com: pão, azeitonas retalhadas de Moura, queijos frescos e secos de Serpa, chouriço e torresmos de porco preto de Barrancos e boa pinga da Vidigueira, escolheu o grupo para almoço, bacalhau e borrego assado no forno.
Escolhi borrego.
Fantástico! Estava simplesmente delicioso!
Com honestidade e em abono da verdade, nunca tinha comido borrego tão saboroso.
Ainda pedimos, os alarves, uma dose extra para reforço dos exageros já cometidos, mas já não havia mais, tinha esgotado. Tivemos que dar um toque final nas travessas de bacalhau, deixar sobras induz a que alguém pense que as doses vêm excessivamente servidas. Antes fazer mal, que sobrar.
Para sobremesa obsequiei o estômago com uma generosa dose de Pão de rala. Divinal.
Um restaurante que serve o bom da gastronomia tipicamente alentejana e cativa qualquer exigente cliente.
Terá honras de nova visita.
Porque no grupo todos sabem que viajar leva a um corte com a rotina e descomprime, ficou decidido que na próxima edição dos Pinguinos, janeiro de 2014, estaremos presentes, e,  umas corajosas penduras prometeram marcar a sua presença na maior concentração invernal internacional.
Viajar de mota com as sempre duras condições de Inverno, chuva, frio, neve, não é pêra doce.
No regresso uma primeira paragem do grupo para contemplar o maior lago artificial da Europa, a bela albufeira do Alqueva, e uma segunda, já sem a companhia do Homem do Caminhão Tir, o H.M., e suas penduras, em Vila de Frades, que já não tendo abades têm adegas que são catedrais.
Antiga villa romana que revela vestígios de uma primeira ocupação no Neolítico final, sofreu transformações diversas ao longo dos séculos.
Na época medieval, a ocupação religiosa transformou a villa romana num convento, em honra de S. Cucufate, o santo padroeiro que lhe deu o nome.
Passar em Vila de Frades e não abrir caminho até à garganta com um jarro de branco saído das enormes talhas de origem romana, é crime e uma afronta a S. Cucufate.
Na última concentração da Vidigueira, os companheiros açoreanos do grupo motard “Os Meia Dúzia” cumpriram com dedicação naquele espaço, o pagamento de promessas com uma dúzia de canadas de néctar baconiano sumidas garganta abaixo.
Para terminar o passeio em beleza como habitualmente, eu e o Capitão Espargo, na Cervejaria Covas, tivemos que encharcar umas imperiais e enterrar um naco salgado, “fatiado”, de manta de porco preto com três dedos de altura.
Há que perdoar o mal que faz, pelo bem que sabe.
Boas curvas
Zé Morgas

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