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quarta-feira, 5 de março de 2014

Carta Aberta XXXIV - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente
Foi longo e de exageros o meu almoço. Um almoço alancharado.
Na passada sexta-feira, abriram a Lagoa de Santo André ao Mar, um ritual com tradição que se repete todos os anos, de enorme espetacularidade, este ano mais cedo do que o habitual.
Este processo, que já foi da responsabilidade da Câmara Municipal de Santiago do Cacém e depois da Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha, está agora a cargo da Agência Portuguesa do Ambiente e visa a renovação da água da lagoa, a limpeza e lavagem do seu fundo e a entrada de algumas espécies piscícolas, com destaque para os alvins e enguias.
O processo, outrora feito pela força de “braços e bestas”, foi substituído já há vários anos por máquinas. A abertura da Lagoa de Santo André é feita todos os anos numa altura sempre próxima do equinócio da Primavera.
Com a abertura da Lagoa ao mar acabou a pesca da enguia, desde 2010 já muito reduzida devido ás restrições impostas, proibição de pescar exemplares com menos de 22 centímetros, e pesca da “enguia prateada”, ou seja, em idade de reprodução, com salvaguarda à conservação da espécie.
São conhecidas pela excelência da qualidade as enguias da Lagoa de Santo André.
Resolvi fazer a despedida da época, não gosto das enguias que por aí abundam, moles e com sabor a farinha, vindas dos viveiros de Aveiro, porque fartura e boas, só a partir de Setembro.
Apreciador como eu deste petisco digno dos deuses do Olimpo, “esgarradas” por processos ancestrais, sem recurso ás modernas betoneiras, confecionadas seja que de forma forem: fritas, caldeira, ensopado, acompanhou-me, entre mais Amigos, na maratona gastronómica, um ex. colega meu já na situação de pré-reforma, que entre os intervalos da chegada das travessas e dos tachos, contou uma situação que não resisto a partilhar.
Contava o meu Amigo, há uns anos por morte de um familiar, “viu-se” , conjuntamente com duas irmãs, herdeiro de bens num concelho vizinho de Penamacor, concelho onde nasceu, pouco viveu, emigrou para Angola em tenra idade, e de onde regressou já adulto, aqui, ao Litoral Alentejano.
Sabia da vontade do familiar em que os bens permanecessem na posse da família.
Um cunhado, médico de profissão e com situação económico/financeira desafogada manifestou interesse em ficar com os bens, onde se incluía uma casa degradada, bastante mesmo, no centro da vila, junto à Igreja da Paróquia.
Chegaram a acordo.
Disse que passado algum tempo, o cunhado foi avisado pela Câmara por carta registada com aviso de receção, para o real perigo que a acelerada degradação da fachada do imóvel representava, e convidado com prazo, curto, a arranjar um compromisso de segurança para evitar a derrocada da dita fachada.
Findo o prazo estipulado, por esquecimento, desleixo, escudado no status, sabe lá, nada fez.
Fez a Câmara,
Demoliu a fachada e apresentaram-lhe os custos tidos com a demolição.
Não gostou, não pagou.
Mais, a Câmara guardou as pedras de granito da fachada em espaço próprio, seis meses depois, apresentou o valor do espaço de armazenagem.
Não gostou, não pagou.
Um semestre depois, nova “dolorosa”, e nova carta registada com aviso de rece
ção a lembrar-lhe os direitos, deveres e obrigações que têm, e a "ameaça" de um final pouco feliz:
Ou paga ou fica sem o imóvel para cobrir as dívidas já acumuladas.
Sr. Presidente
Enquanto ouvia o meu Amigo no intervalo da sofreguidão das garfadas, veio-me logo à memória o caso em Penamacor da casa “especada” com um pau a invadir a via pública, sito na Rua Pereira Macedo, ironia do destino, nesta minha última estadia, tinha parado à porta da dita casa quando voltava de mais uma valente almoçarada no restaurante da piscina.
Passo por lá com muita frequência, foi a Rua onde nasci.
Vi pedras na via pública, despertaram-me a curiosidade, não vi portas escancaradas, mas o entulho, pelos buracos das portas de madeira sai sem pedir licença, invadindo o espaço que não lhe pertence.
A medo fui espreitar o interior sem entrar demasiado com os olhos dentro dos buracos.
É medonho o que ali está. Ouvi de alguém que no momento passava:
- “Tenha cuidado, saia daí, vai cair tudo e alguém pode ficar ferido. Olhe que isso não resiste a outra invernia como a que passámos”.
Levei a advertência a sério.
Sr. Presidente
Atente nas fotos, sem mais palavras, sem legendas…
Sem querer entrar por  grandes paralelismos, reconheço contudo que são muitos, e muito comuns, os problemas dos municípios
Então porque não, também, tornar comuns as boas decisões que levam a ações eficazes?
O Povo de Penamacor, ficar-lhe-a grato, e em particular, os moradores  e utilizadores da Rua Pereira Macedo.
Sempre ao dispor
Zé Morgas

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Carta Aberta XXXIII - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente
Vi, com agrado, na minha última estadia em Penamacor, durante a semana passada, que uma equipa da Junta de Freguesia procedia à reposição de material nas juntas dos paralelos da calçada na principal rua da Vila.
Um simples e bom começo para evitar que o problema se agrave, sabendo que outro tipo de intervenção é necessário para ser mais duradoiro.
Sei que este não será o problema mais importante a resolver no imediato, nem factor decisivo ao impedimento do desenvolvimento do nosso concelho.
Sei também, publicamente são falados, terá de futuro problemas mais graves para resolver, que lhe ocuparão e à equipa que lidera, demasiado tempo. Tempo que também não lhe quero ocupar.
Contudo, e porque é quase Natal, não resisto a roubar-lhe alguns preciosos minutos para lhe falar de uma passagem.
A própria Vida é uma passagem, uma breve passagem que se deseja para todos longa e vivida com alegria, infelizmente curta para alguns dos que a seguir recordarei, pessoas por quem tinha a maior das estimas, respeito e consideração, o mesmo respeito e consideração com que evocarei as suas memórias e os nomes e cognomes pelos quais carinhosamente eram conhecidos e tratados.
Deixo em registo neste modesto texto um sincero voto de Paz à Suas Almas.
Não é a esta passagem de vida que me quero referir, refiro-me a um caminho, uma passagem pedonal, uma maldita passagem.
Sr. Presidente
Lembro-me que foi numa fria tarde de um Domingo invernal de Janeiro do ano ido de 1995 do século passado.
Entrei no café Flor do Adro.
Ao redor de uma mesa, estrategicamente colocada junto a uma fonte irradiadora de calor, conversando e saboreando um café quente, estavam sentados: Sr. Padre Manuel Toscano, Sr. Manuel Marinheiro, Sr. Manuel Sapateiro e o Sr. António Pioscas.
Cumprimentei-os, de imediato me convidaram a sentar-me junto a eles e a beber o que quisesse.
Café e whisky foi a minha escolha.
Continuaram a conversa na minha presença.
Falavam da alteração da localização para a futura construção da fábrica dos têxteis.
Naquele momento revelou o Sr. Manuel Sapateiro ao Sr. Padre Manuel a intenção de desistir da compra já apalavrada de uma parcela de terreno, sita nos Unhais, propriedade da Fábrica da Igreja Paroquial de Penamacor.
A intenção passava por construir onde se localiza actualmente.
Disse o Sr. Padre Manuel que compreendia a deslocalização, não haver penalização na desvinculação da palavra, qualquer belisco na amizade, e de imediato, eu, porque bem conhecia o terreno, até confinava com um que o meu Pai lá tinha e têm, propus-me a comprar o dito terreno, pelo mesmo valor acordado com o Sr. Manuel Sapateiro.
Assim, sempre a Fábrica da Igreja encaixava uns dinheiros.
O Sr. Manuel Marinheiro com a perspicácia que lhe era reconhecida para o negócio, ajeitou logo forma de inflacionar a venda a favor do Padre Manuel e da Igreja.
Falei do problemático acesso ao terreno, da legitimidade como uma pequena parcela de terreno fora “engolida”, das muitas horas passadas aos domingos de manhã no tempo em que fazia o ensino preparatório, a apanhar pedras no terreno do meu Pai, que transportava num carrinho de mão para atulhar uma cratera que por ali existia ao fundo da quelha, dificultando a passagem dos utentes, originada pelo forte caudal de águas pluviais oriundo da Rua de Carros. A obstrução à passagem das águas foi feito com a construção de uma mini barreira em cimento, que ainda lá está, erguida também com muito do meu suor.
Verdade que tais esforços valeram-me a recompensa de uma bicicleta, comprada no Ti Faustino na Aldeia do Bispo e alguns elogios dados pelo Ti Joaquim Beltrão e o Ti João D’metro, Deus os tenha também em bom descanso na nossa ausência, homens que tratavam os terrenos vizinhos, que viam beneficiada assim a segurança da sua passagem.
Recordei-lhes na Flor do Adro, as dificuldades sentidas nomeadamente no tempo da colheita da azeitona, eu próprio padeci lá muito a carregar quelha “acima”, sacas cheias ás costas.
Era proibido o uso de mochilas. Mochila era carrego de mulher. Brutidades do tempo.
As pessoas que tratavam os terrenos vizinhos, e todos os que os ajudavam, a entreajuda era uma constante na época, nomeadamente na apanha da azeitona, sofreram muito, durante anos carregaram pesados sacalhões quelha acima, e quelha abaixo, era necessário transportar sementes, adubos estrumes, etc, tudo o necessário ás lides agrícolas, a comida para os animais que por ali abundavam: galinhas, patos, perus, coelhos, porcos...
Era uma festa anual, um ritual de partidas, a matança do bácoro realizada nos Unhais. Doloroso era trazer o animal morto até à Rua de Carros.
Transportei alguns ás costas por aposta. Perder não era palavra que conhecesse. Outros vinham de carrinho de mão ou de padiola, apenas porque alguém, não permitia a passagem de qualquer viatura motorizada pela quelha, alegando alto e bom som ser propriedade sua.
Sem perceber o porquê da “guerra da quelha”, tanta era a gente que ali passava, interrogava os vizinhos agricultores porque é que naquelas alturas não “cravavam” um tractor para transportar as coisas. Um encolher de ombros e lá ouvi algumas vezes uma enigmática frase dos homens que me elogiavam o trabalho de atulhar o buraco:
- Não vale a pena arranjar chatices. O homem diz que isto é tudo dele, que aprendeu muito na escola do S. Carlos.
Com o passar do tempo fui aos poucos sabendo a causa da discórdia, não como foi feita.
Acordei o valor a pagar, foi selado com a abertura de uma garrafa de Logan, que eu paguei.
Outra peripécia houve. No dia seguinte ao sinalizar a compra o valor disparou. Foi feito um cambalacho. Perdoei a acção aos intervenientes na jogada.
Cobri a parada. Comprei o terreno. Ganhou a Igreja.
Já tinha gasto muito mais dinheiro em coisas menos importantes e de menos valor.
Uma forma de provar ao meu Pai que não gastava tudo o que ganhava só na “estroina” e em viagens. Já contava algumas pela Europa.
Disse-me o Padre Manuel que iria marcar a escritura, arrolar duas testemunhas e me daria conhecimento da data, afim de eu me deslocar de Santo André até Penamacor para formalizarmos o acto.
Só no dia da escritura soube que afinal o terreno estava em nome de: Bens da Igreja (Confraria Santíssimo Sacramento). Foi feita uma escritura por usucapião a favor da Fábrica da Igreja Paroquial de Penamacor e quase em simultâneo a escritura em meu nome.
Foi uma das testemunha o Sr. Zé Cunha, um homem que sempre conheci a trabalhar na Taberna do Sr. Manuel Seguro, onde também confesso ainda bebi os meus valentes tintos e comi deliciosas pataniscas de bacalhau.
Admirava o Ti Zé Cunha por duas razões, primeiro pela extraordinária calma com que atendia principalmente quem já estava ébrio, e segundo, aqui sim também com um misto de fascínio, pela forma como servia os copos. Para ouvir a tão exclamada reclamação da juventude “Oh Ti Zé eu não sou careca” servia os copitos de três, parcos em volume, abaixo do bordo. Ouvida a exclamação, era um encanto ver a arte com que rasava os copos sem rasoura, sem verter uma gota. Não se elevavam os copos à boca com receio de tombar pinga, beijava-se o vinho, chupando-o.
Sei por experiência que bocas de taberneiros e barbeiros são por excelência túmulos sagrados de confidências anónimas.
Perguntei-lhe se naquelas conversas ouvidas na taberna em momentos mais quentes, em que o vinho solta a língua, se discute o marco mal colocado, o cômaro desfeito, a cortiça tirada por mão alheia, um palmo ou dois de terra surripiado, etc... já ouvira falar do problema de um pedaço de terra anexado a um terreno de forma duvidosa.
Acenou a cabeça em sinal afirmativo e lá ouvi que - aquele bocadito de terra, que é uma miséria, o seu Pai têm razão, era de família do tio do seu Pai, padrinho do seu irmão. Esse homem esteve acamado muito tempo, tratou-o a sua Mãe com muito carinho até morrer. Mas sabe, pelos vistos aquele bocadito de terra foi parar a nome de outro.
É verdade, bem o sei, mas porque há coisa que o tempo não apaga da memória, alimentei com alguma esperança a resolução do problema através de uma “magistratura de influência familiar”.
Num almoço, lá para os lados da Quinta de S. Tiago, em conversa com o novo dono manifestei-lhe a intenção de lhe comprar por preço justo aquele pedaço de terra, para me facilitar a passagem a mim e aos demais, inclusive a ele.
Ouvi o que não desejava, palavras desagradáveis, ameaças, perdoei-as pela diferença de idades, e a manifesta vontade de um dia colocar um portão no início da quelha, porque a quelha lhe pertencia.
Se me vendesse aquele pedaço de terra perdia o direito à quelha.
Resolvi deixar o terreno e as oliveiras aos cuidados do meu Pai.
Mal ou bem, com menor ou maior esforço lá ia cuidando das minha oliveiras.
Estive uns anos sem lá por os pés.
Nessa altura arranjei a 1ª folha A4 com o cadastro do local.
É sabida a minha paixão pelas grandes motos e motorizadas.. Percorri aquela quelha dezenas de vezes na Flandria do meu Pai, a motorizada da minha aprendizagem. A garagem sempre foi naquela térrea casa lá no sítio dos Unhais.
Conhecia os buracos e o lugar das pedrinhas de cor e olhos fechados. Tantas foram as vezes que por ali escapei aos guardas, Albino, Moreira, Rato. Quando o perigo espreitava pela Vila, conduzi dos 10 até aos 14 anos sem licença de condução, arranjava sempre forma de entrar por uma das transversais da Rua de Carros, motor desligado, em surdina a ingreme descida encarregava-se de me conduzir ao meu refúgio de abrigo.
Junto aquela casa esteve longo tempo imobilizado ao sol e à chuva um tricarro Zundapp, que decidi recuperar. Com o motor “agarrado” mais não me restou que recorrer à ajuda de um tractor para rebocá-lo.
Soube posteriormente e sem aprofundar grandes detalhes, que nem tenciono saber, tal acto valeu-me quase um processo em tribunal.
Chegou-me o recado: “O meu genro é juiz e trata dele”.
Sorte a minha o tractor ser pertença e conduzido pelo sobrinho de quem que ser dono do caminho. Há dias de sorte.
Por essa data fui buscar outro cadastro em formato A4 ao IGP em Castelo Branco.
A funcionária em Castelo Branco disse-me não haver dúvidas que a quelha é pública.
Já em Penamacor e com dois cadastros na mão, analisei-os, reparei que havia diferença no desenho do caminho de acesso ao prédios 44, 45 e 49, na área assinalada do prédio 47 e alterações na  numeração de todos os prédios:
O prédio 100 passou a 45, o 101 a 44, o 102 a 49 e o 104 a 47.
Porquê e qual o critério usado na renumeração?
Interrogava-me em silêncio.
Quis o destino que no início de Abril do ano que está a findar, andava eu de moto em passeio por terras Marroquinas, um grave problema de saúde tenha atirado o meu pai de urgência para o Hospital de Castelo Branco e posteriormente para a unidade de cuidados intensivos em Vila de Rei, impedindo-o de tratar do que é dele e do que é meu.
Somente em Junho fiz uma visita aos terrenos e deparei-me com algo assustador devido à falta de trato, a começar pelo acesso.
Ao ver os terrenos naquele estado de abandono, o pasto seco, mais alto do que eu, que me impedia a real visão do perigo ali existente, num acto de retrospecção avivando os ensinamentos da minha Mãe, a quem a escola da vida tudo ensinou, fez apenas a escolaridade básica, e o básico na altura era a 3ª classe, me ensinou a olhar para as coisas pelo seu valor e não pelo seu preço.
Com ela aprendi também que na vida não é feliz quem faz o que quer, mas quem quer o que faz.
Naquela terra, nos Unhais, vi muitas vezes a minha Mãe resignada, trabalhar para o bem dos outros, aceitando pacientemente as contrariedades da vida.
De imediato decidi limpar as parcelas, fui falar com pessoa Amiga para me aconselhar no que seria mais útil para proceder à limpeza e eliminar aquele perigo.
- Têm lá uma moto-enxada, mas dava muito jeito uma “roçadoira”.
Combinei com ele um passeio ao Fundão para o dia seguinte, no regresso trazia uma roçadora.
Limpei, limpamos o meu terreno e o do meu Pai, participei ás entidades competentes os factos que atentavam contra a segurança pública.
A limpeza do caminho foi feita por elementos da Junta de Freguesia de Penamacor.
Quem tanto insiste em afirmar que a quelha é pertença sua, como permitiu que fosse a Junta a executar as acções de limpeza?
Para limpar já não é sua? Acarreta custos!
Sr. Presidente
Na semana passada, ao visitar o meu terreno, reparei que no terreno do meu pai estavam uns pedaços de viga a fazer de marcos.
Já por lá tinha visto outros e sempre a quererem entrar um pouco mais pelo terreno dentro.
Um dia ocuparão o poço.
Para quê tanta ganância se a terra quando morrermos fica cá toda.
Temos a obrigação moral de a deixar ás gerações vindouras em melhores condições do que aquelas em que a herdamos.
Somos apenas um elo de ligação entre os que partiram e os que estão para chegar.
À revelia do meu Pai, se o homem gosta tanto de terra, atrevo-me a oferecer, e cumpro, mais 10 ou 20 centímetros de terra, que estique os marcos, na condição de me deixar cumprir uma segunda.
Quando o homem morrer prometo que fretarei todas as máquinas retro escavadoras disponíveis em Penamacor, não quero atritos com ninguém, cada uma levará um balde cheio de terra do meu terreno, em romaria até ao cemitério, e deixá-la-á sobre a sua campa para que a guarde eternamente.
Prometo que tudo cumprirei se ele assim o desejar. Que o expresse.
Reparei também que a vereda de acesso aos terrenos 44, 45 e 49 está cada vez mais inclinada, dificultando a normal circulação pedonal, e deslocada por efeito de alguma terra que vai tombando do terreno 47.
Recordo-me bem por onde passava a vereda quando transportava os carrinhos de pedra, por onde circulava sempre que ia guardar a bicicleta ou a Flandria na casa que está no terreno de meu pai, sei bem onde pisava, e por onde subia o muro sempre que ia para debaixo da figueira no terreno 47, tal como outros amigos da minha idade, apanhar uns passarinhos para o petisco.
Muitos Amigos meus ainda se recordam também por onde pulavam a “cerca”.
Sempre que o meu Pai deixava, e o tempo o permitia, gostava de o acompanhar nas idas ás tabernas, muitas eram as que existiam em Penamacor.
Há uma onde fui particularmente feliz, a Taberna do Ti António Abreu.
Histórias e peripécias para contar passadas na companhia do Tó Luís Abreu, Chico Alves, entre tantos, teria ás centenas, nos meus tempos de estudante do 5º, 6º e 7º ano, a vergonha sentida quando “catados”, ainda a encharcar copos, pelo Ti Abreu, à hora que ele se levantava para ir trabalhar.
Vêm a propósito a taberna do Ti Abreu, porque ainda me recordo de ver ali à venda pedras de granito, os vulgares marcos, com que se fazia a marcação dos terrenos para cadastragem.
Andava eu na escola primária.
Com a memória dos marcos que via na Taberna do Ti Abreu, recordo as palavras que ouvi na quelha, visualizo os cadastros e as percebo as diferenças, coincidentes com o início das chatices entre o meu Pai e o novo dono daquele maldito pedaço de terra.
Finalmente compreendi o significado das palavras: “ A escola de S. Carlos”.
S. Carlos era um lugar de elite, frequentado por gente formada e bem informada, boa informação levou a alguma antecipação, pessoas simples, humildes, a grande maioria iletrada, num interior esquecido, quando colocaram os seus marcos, parcelas havia que passaram de gerações em gerações apenas de palavra, já o cadastro tinha sido feito e com os marcos noutra posição.
Quem fez o cadastramento limitou-se a cadastrar o observado.
Sr. Presidente
Sou um cidadão cumpridor, nada devo ao fisco nem à segurança social.
Pago o meu IMI religiosamente em três concelhos.
Pago IMI de um terreno ao qual não consigo aceder em igualdade com os demais pagadores.
Se houver uma desgraça no meu terreno, um acidente, um fogo, ou nos terrenos vizinhos, não há nenhuma possibilidade de acesso para um carro de intervenção rápida ou uma ambulância.
Meios aéreos não estão ali à mão de semear.
Não necessito, não quero, seria coisa impensável, um acesso com o luxo da mamarrachal via estruturante, basta apenas um simples caminho onde passe com um pequeno tractor, um carro de transporte de mercadorias e possa dar a volta de retorno.
No dia após ter estado no edifício da Câmara a que Vª Exª preside, na semana passada, recebi um novo recado do auto intitulado dono do caminho, enviado através de um Amigo:
- Se quiser passar com a sua moto-enxada pode passar, o Ti Armando é que não pode passar com a dele.
Como para bom entendedor meia palavra basta, o destinatário sou eu. É sabido que o meu Pai por causa do problema que o afectou, jamais pegará numa moto-enxada, seja aquela ou outra.
Sr. Presidente
Este pequeno grande problema têm tanto de urgente na resolução como de simplicidade na solução.
Três ou quatro carradas de saibro, uns metros mais de terreno para abrir o ângulo da curva, arranjos murais, a parcela da discórdia para zona de viragem e basta.
Desenhei no velho cadastro o desejado acesso a vermelho.
Que tal para nome do novo acesso - “Beco dos Unhais”.
Ainda perduram no terreno as marcações reais que constam no velho cadastro, confirmando as suspeitas na elaboração do novo e em vigor cadastro.
A parcela da discórdia nem referência cadastral tinha, tal como o Caminho da Devesa, o Caminho da Cavaleira e outros.
Sr. Presidente
Afirmo com toda a certeza:
1º - Não quero a posse da leira em questão, não é minha, tão pouco a reclamo em nome do meu Pai.
Quero apenas é chegar aquilo que é meu em segurança, em igualdade de condições como qualquer cidadão cumpridor dos seus deveres. Exijo o respeito pelos meus direitos.
2º - Recusar-me-ia a herdar aquele misero bocado de terra, se alguma dúvida houvesse na legitimidade como foi adquirida.
Ofertava-a ao Povo de Penamacor, para juntar à quelha que é pública.
Sim, é pública, isso me foi afirmado no Instituto Geográfico Português.
3º- Morreria corroído pela minha consciência, sabendo que por uma birra de dois palmos de terra para passagem, tinha feito sofrer em vida tanta gente, humilde e pobre, vergada sob pesados fardos, apenas porque a tudo se resigna sem oposição.
Sr. Presidente
É real e perigoso para pessoas e bens o estado de abandono a que alguns terrenos estão votados na área, pasto seco demasiadamente alto, é assustador o potencial energético que contêm, poços sem protecções de segurança, etc.
Se houver um modesto acesso tudo se resolve, sem acessos é extremamente complicado.
São por vezes estes pequenos problemas que ajudam à fixação e ao retorno de pessoas.
Não resolver os problemas das pequenas acessibilidades é acelerar o despovoamento de um concelho já de si quase deserto e desmotivador para quem um dia pensar em regressar ás origens.
Vivemos no ano 13 do século XXI.
Adiar decisões óbvias é agravar problemas simples.
Caminhos só para burros, eram vias do passado.

Desejo a todas e todos
FELIZ NATAL

Zé Morgas

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Carta Aberta XXXII - Sr. Presidente C.M.Penamacor


Sr. Presidente da C.M. Penamacor
Permita-me em primeiro lugar que me apresente:
O meu nome é José Salgueiro Cunha De Almeida, nascido em Penamacor, um cidadão cumpridor, que nada deve ao fisco nem à segurança social.
Na vida vivida sou aquele a quem apenas, e quase só, conhecem por Zé Morgas.
Dirijo-me a Vª Exª desta forma, porque desde a tomada de posse, que aguardo com serenidade a abertura da página web do nosso concelho, apenas informa estar o site em manutenção, para actualizar a minha lista de contactos, e assim, manifestar junto de todos, as minhas opiniões a que o meu dever de cidadania me obriga.
Sr. Presidente
Em primeiro lugar queria deixar aqui expresso os meus Parabéns pela vitória alcançada nas eleições, e um agrado especial pelos artigos que li no Povo da Beira e Reconquista, sobre o Vosso discurso de posse.
Um discurso humilde e realista, com dignidade e enorme sentido de responsabilidade.
Gosto de promessas mas sem o excesso da excitação das campanhas eleitorais.
Expresso igualmente os meus parabéns a todos/as os eleitos/as à Assembleia e Junta de Freguesia..
Em segundo lugar partilhar aqui os louvores que várias vezes ouvi, na minha última estadia em Penamacor, e alguns de vozes desconhecidas, pelo facto de durante o fim de semana, a viatura pessoal que lhe está atribuída, e têm todo o pleno direito a usar, se encontrar estacionada junto ao edifício dos Paços do Concelho.
Duas atitudes que me renovam a confiança que tenho na esperança do vosso mandato, que sei, ser difícil, porque o fardo herdado é pesado

Sr. Presidente

Já em anterior carta aberta que enviei ao vosso antecessor, Carta Aberta II, alertava para a degradação acelerada, por motivos que ainda persistem, verificada nas calçadas de Penamacor.
Hoje estão piores, terrivelmente piores.
A máquina usada para limpeza não é apropriada para esse tipo de piso. A rotatividade das escovas enfraquece a consistência, compactação da areia entre as juntas dos paralelos, facilitando a sua aspiração.

Há troços de calçada em estado caótico.
Tal não acontecia com o tradicional método de varrimento manual, pelo facto de geralmente a areia ser mais pesada que o vulgar lixo.
Varre aqui, varre dali, a areia solta apenas mudava de juntas, ficava lá toda entre os paralelos da calçada.
O dinheiro da aquisição da máquina, os custos de operação e manutenção, manteriam por igual período de operabilidade da máquina, três ou quatro postos de trabalho, num concelho quase deserto que tanto necessita de pessoas, já para não falar do enormíssimo custo que será a reparação da calçada.
Sr. Presidente
Sempre ao dispor para tudo o que seja pelo bem, desenvolvimento e existência do nosso concelho.
Zé Morgas


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Carta Aberta XXXI - Sr. Presidente C.M.Penamacor

Sr. Presidente em fim de mandato

À excepção das vezes em que votei para a eleição do presidente do clube da minha paixão, e que sempre acertei, é sina minha votar nas autárquicas, confesso que nem sempre cumpri com a assiduidade que é minha obrigação, em candidatos que nunca foram eleitos.
Com pena minha, porque os candidatos vitoriosos, defraudaram e derrotaram sempre as expectativas e esperanças de quem os elegeu, dando-me a razão pelo benefício da dúvida que as minhas escolhas foram sempre as mais acertadas, embora as menos votadas.
Faço parte de um grupo de moto turismo onde tenho amigos das mais variadas cores clubísticas, tive nas ultimas eleições amigos candidatos em todas as listas politicas, não tive adversários políticos, porque não fui candidato por nenhuma lista.
Tanto no moto turismo como na politica não tenho inimigos, sabendo contudo que pelo meu comportamento frontal, ás vezes duro, crio algumas inimizades, que até estimo e cultivo.
Fruto talvez, da formação que tive na Força Aérea Portuguesa, aprendi a respeitar os Generais que me elegem como parte das suas tropas sempre pronto a segui-los nas maiores adversidades, não aceno a cabeça em sinal de obediência, disponível a desertar ao menor sinal de perigo.
Ouço, ouvi, por Penamacor, recados, desabafos de alguém em voz de surdina, desejosos e prontos a eleger generais, que na necessidade do confronto com a verdade, tudo se negam a confirmar.
Sr. Presidente em fim de mandato
Trinta, sim trinta foram as Cartas Abertas que lhe enviei nos últimos anos, cartas que talvez nunca tenha lido, deu a ler, certo é que algumas surtiram o efeito pretendido, onde lhe manifestei as minhas observações, o meu descontentamento pela danosa gestão do destino das gentes e do concelho de Penamacor.
Os meus conselhos e dúvidas em Carta Aberta teriam ajudado a preservar e a edificar um concelho melhor. Fez vingar a certeza da sua teimosia.
O Sr. fez do Povo do Concelho de Penamacor uma gente triste. Há funerais onde as pessoas circulam com mais alegria. Foi o coveiro rude da alegria conselheira e unidade concelhia.
Sem querer recordar a garrafal obra mamarrachal, relembro-lhe algumas, e que serão encargos futuros muito dispendiosos para as depauperadas finanças do município, com graves prejuízos para os munícipes:
- Mamarracho do Sumagral, Via Estruturante Sul, Muro da Vergonha, Rotunda das Aldeias, a localização do Monumento aos Combatentes do Ultramar, pasme-se no centro de uma rotunda e sem uma passadeira de acesso, Hotel, etc...
Apontei-lhe soluções alternativas, acredito que aceitá-las feriria o seu orgulho de presidente.
Mas ferido ele já está.
Quem como eu, analisou a pompa e a circunstância com que inaugurou os mamarrachos feitos, originando esquecimentos imperdoáveis, tal como o nome do Sr. Presidente da República na pseudo- via estruturante sul de quatro faixas ao lado de uma variante à Vila com apenas duas, ou então, foi um jeitinho ao Presidente da República, não convinha ligar o nome a tão vergonhosa obra, constatei que durante a campanha finda, não soube nem vislumbrei qualquer recente inauguração feita no concelho, não ouvi um elogio à sua obra feita, uma única palavra de apreço por parte dos candidatos concorrentes, aparte claro, os sempre submissos beija-mão de qualquer circunstância.
Observei sim, alguns esgares de saudade a rondar as caretas do escárnio.
Sr. Presidente em fim de mandato
A história da obra feita no Concelho de Penamacor já o cognominou como o Presidente dos Mamarrachos, essa mágoa herdará doravante e viverá com ela.
Perpetuar-se-á por gerações o cognome, enquanto as obras forem visíveis.
Acabou o folhetim das eleições autárquicas, acabou o fait-diver da campanha eleitoral.
É tempo de pela primeira vez todos pensarmos no colectivo do concelho.
Para remissão de alguns dos seus pecados deixo-lhe um conselho para passar como testemunho ao novo Presidente eleito:
Não prometas o que não podes cumprir. Faz apenas o que puderes.
A começar por chamar as gentes ao concelho.
Cá estarei para dar o meu contributo, farei um apanhado das sugestões apresentadas nas minha cartas abertas:
- Confraria do Madeiro; Rota das Fontes; Rota das Romarias e Capelas; de cariz religioso, o Concelho é riquíssimo em oferta desconhecida; Rota dos baluartes....
Sr. Presidente em fim de mandato
Os sábios estão cheios de dúvidas
e os ignorantes cheios de certezas
Logo, uma das coisas mais perigosa na política é falar sem ter nada que dizer.
Termino, com a esperança que o novo presidente eleito, e todos os eleitos que o acompanham, se algumas das minhas sugestões relatadas lhe der suporte para uma base de trabalho, se avaliada e melhorada for, em prol do desenvolvimento do concelho, isso me dará um orgulho que não escondo.

Zé Morgas

terça-feira, 20 de agosto de 2013

VI Encontro Antigos Alunos ENSI


Prometi a mim mesmo, com todos os sacrifícios que isso me acarretaria, que estaria presente no VI convívio dos Antigos Alunos do Externato de Nossa Senhora do Incenso.
Foi há trinta e cinco anos que abandonei o Externato de Nossa Senhora do Incenso para ingressar na Força Aérea Portuguesa.
Entrei pela primeira vez naquela casa em outubro de 1971, algo tímido e acanhado, num ambiente completamente novo e complexo para o meu imaginário de jovem com dez anos de idade.
Sai em em final de novembro desse ano para a recente inaugurada Escola Preparatória Ribeiro Sanches, onde completei o 1º e o 2º ano do ciclo preparatório.
Regressei ao ENSI em 1973 para frequentar o 1º ano do curso liceal, vulgo o 3º ano, e por ali me mantive até 1978, ano em que frequentei o 2º ano do curso complementar, antigo sétimo ano.
Os anos foram correndo com naturalidade e ali aprendi as bases e os princípios de tudo o que sei hoje, tive a sorte de encontrar professores e pessoas que me souberam colocar obstáculos, difíceis mas saudáveis e que sempre me souberam impulsionar para diante, nunca faltando uma forte relação de companheirismo e compromisso.
Neste momento e mais do que nunca, agradeço todos os conhecimentos que me transmitiram naquele colégio, valorizo as amizades ali criadas e as saudades de alguns episódios passados.
- 0 25 de abril de 1974.
Foi numa quinta-feira e lembro-me bem desse dia e das viagens que fiz nos intervalos das aulas com o Tó Luís Abreu até junto do depósito da água para ouvir alguma noticia no meu rádio transístor de bolso, encostava o aparelho ao cabo de descarga do para raios para potenciar o efeito de antena, um Sanyo que me havia ofertado uma prima minha que estava em França, dois anos antes.
Com apenas 12 anos de idade, andava no 3º ano do colégio, rebelde, com um rádio de bolso só meu para ouvir o que bem me apetecesse, (em casa, ouvia o que o velhote habitualmente ouvia,  a Rádio Altitude, num rádio Luxor a válvulas, já o herdei, é uma relíquia de colecção) claro que a oferta de estações emissoras eram poucas e o sinal débil, mas mesmo assim facilmente me viciei a ouvir o meu transístor, com o auricular branco enfiado no ouvido, por regra até à uma da matina. Aquele hábito ainda me causou alguns pequenos dissabores, o rádio “papava” pilhas à bruta e de quando em vez, lá tinha de surripiar umas moedinhas em casa, para ir comprar pilhas novas na mercearia do Pouca Tripa.
As emissoras com melhor sinal captadas no meu transístor eram a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português e a Rádio Renascença.
Nessa noite de 25 de Abril de 1974 ouvia a Rádio Renascença, ouvi uma música que nunca tinha ouvido e confesso até que não conhecia, soube depois que era uma musica de passagem proibida, “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso, por volta da meia noite e vinte, sem jamais suspeitar que era a senha para o inicio da revolução dos cravos.
Foi um homem de Penamacor, Joaquim Furtado, o pai da Catarina, o locutor que, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, leu o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas, no Rádio Clube Português.
Por causa desse vai vem para ouvir as notícias da revolução o meu amigo Tó Luís ficou com o bichinho da rádio, e um tempo depois, num dia de derby Benfica Sporting massacrou-me tanto o juízo para que lhe alugasse por cinquenta paus o transístor durante um mês.
Dias depois o rádio deixou de funcionar. Adormeceu com o auricular enfiado na orelha e num movimento jogou o rádio ao chão. Eu, do “carcanhol” nem cheiro.
Esse rádio ainda serviu para o João “forneiro” fazer umas experiências sem contudo voltar a funcionar. Comprou um daqueles cursos de electronica por correspondência com francos franceses, mas na altura a paixão pelo jogo do monopólio era superior. Adeus transístor.
- Aquela escadaria...
Aquelas escadas... as vezes que as desci de bicicleta.
Depois de umas voltinhas no átrio do colégio, o gozo que me dava chatear a Dª Augusta, tocando a sineta que estava à esquerda da porta de entrada na secretaria, pendurada num suporte de parede e quase rente ao tecto, e raspar-me à velocidade da luz, escadaria abaixo.
Uma vez, com a ajuda dos meus amigos das motas, os "Bandidos do Vale de Lobo", numa inocente brincadeira, levámos para o átrio a minha motorizada Flandria, para melodiar os tímpanos das funcionárias da secretaria com a sinfonia do ronco de um motor a dois tempos.

Só que correu mal.
O Engº. António Ressureição avisou o meu pai do sucedido, e ele esquecendo-se dos meus direitos aos abusos próprios dos moços jovens, não se fez rogado e vai daí, num claro acto de desvairo fui vítima de violência infantil:
Levei umas "cinturadas/fiveladas" nas nalgas que me marcaram e doeram c`mo diabo.
Porra! Puto sofre!
Mas há mais.
Aquelas escadas foram também responsáveis por muitas noites de insónias.
Todo o homem sabe que a Mulher é incomensuravelmente bela e há ângulos de vista que a não favorecem, que aos olhos do Homem são potenciadores do desassossego. Quero lá saber se os vestidos ou as saias curtas em uso à época exibidos/as na varanda, eram fruto da moda “mini-“, da carestia dos tecidos que levavam as mamãs a comprar menos uma quarta, ou até mesmo a escassez de matéria prima na Loja do Ramos, sempre descuidado com a reposição de alguns stocks, a verdade é que aquelas visões ao subir as escadas, de olhar inclinado de baixo para cima, recordadas ao fechar das pestanas, obrigavam a noites de árduo trabalho, arraigados ao colchão, a “contar caibros”, de fio a pavio, à esquerda, à direita… um duro preparar trabalho para a serração do Rocha.
- A pior nota que tive num ponto escrito.
Lembro-me exactamente da pior nota que tive, foi a História, no 6º ano com o tenente Ribeiro.
Por razões que só eu sei, assumi nesse dia o abandono para breve do colégio, naquele momento decidi que não prosseguiria os estudos nem responderia a nada do ponto.
Disse-me o tenente Ribeiro que não deveria entregar o ponto em branco.
A 1ª questão tinha duas perguntas: quem tinha sido o inventor da máquina a vapor e quais as implicações sociais da revolução industrial em Inglaterra no século XVIII.
Para não entregar a prova em branco respondi que o inventor da máquina a vapor tinha sido James Watt. Assim aprendi, e sei hoje que não é de todo verdade. James Watt é de facto o Pai da moderna máquina a vapor, mas já os antigos gregos usavam máquinas movidas a vapor embora mais rudimentares.
Tive uma pontuação de meio valor, 0,5 V.
Contudo, no final do período tive nota positiva.
Em verdade, nunca fui um aluno muito trabalhador nem de estudar muito. Bastava-me estar um pouco mais atento nas aulas para compreender e memorizar a matéria com relativa facilidade.
De uma coisa ainda me orgulho, soube o prazer por várias vezes, de tirar “nota 20”, e ouvir rasgados elogios dos professores.
Tantos os que ouvi, envaidecido, dados pelo Engº. António Ressureição nas aulas de físico química.
E, a propósito de elogios...
Vi, revi, no convívio entre muitas caras lindas, uma antiga colega de turma e rápido me vieram à memória as inocentes palavras com as quais elogiosamente a mimoseava na altura:
- “Meu doce bem, meu queixinho de Rebeca, os teus cabelos são a minha perdição.”
Tais mimos, como castigo,  valeram-me a expulsão da turma que era mista, e o ingresso numa turma só de rapazes. Que tristeza.
Porém, para alegria dos meus olhos que ainda vêem bem, continua bela, os cabelos lindos como sempre, lisos e finos ondulando pelos ombros, o mesmo toque, o mesmo sorriso, o mesmo cheiro de pele, a mesma voz.
Voltando ao convívio...
Foi um dia bem passado, extraordinário.
Gratificante foi ver, conversar,  com quem já não via, não conversava,  há mais de 35 anos.
Parabéns aos organizadores.
A fasquia tocou no alto.
Para o ano há mais lá para os lados de Monsanto.
Tudo farei para estar presente, antes que comece a arrastar-me pelos dias que sei serem os últimos da vida, sem poder andar na minha Moto, cometer os abusos do costume e pedir a Deus que me leve.
Não quero viver sozinho entre recordações de uma vida que já passou.
Zé Morgas

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Panterinhas 2013

Foram muitos os telefonemas com que o Matos, o Gonçalves e o Pinheiro, me bombardearam os ouvidos nas semanas que antecederam o convívio dos "Panterinhas",  a comemoração do 35º aniversário de incorporação na Força Aérea Portuguesa, agendado para dia 22 de Junho de 2013, com banquete reservado no restaurante "O Filipe", situado mesmo em frente ao mar, de ambiente afável e familiar, na Praia de Angeiras, Lavra, uma freguesia do concelho de Matosinhos.
Para estar presente necessitava que um colega me desse a garantia que me faria a noite de dia 23.
Já não sou novo, em tempos idos sairia sábado de manhã cedo, de Santo André rumo ao destino, almoçaria com os meus companheiros "Panterinhas" e pouco me importaria ter de regressar, bem comido e bem bebido como se diz no meu raiano concelho, a horas de render o meu colega de área do turno da tarde e fazer a minha noite de trabalho, também já não são novos os meus colegas de área, sou dos cinco elementos titulares o mais novo, fazer dois turnos seguidos é duro, com a agravante de ser fim de semana e implicar a consequente ausência do convívio em Família, que muitos adoram.
Sabia que estar presente me obrigaria a um gasto avultado para um simples almoço, e uma troca de turno obrigar-me-ia ao sacrifício de pagar com outras dezasseis horas de trabalho.
Insistia o Matos com os seus telefonemas, dizendo-me:
- Eras e és o benjamim do pelotão, não podes faltar, já disse à malta que vens.
Confesso com vaidade a honra da distinção.
Sei que era o elemento mais novo do pelotão, e sem o saber porquê, por todos querido, talvez por ser o mais novo.
Forcei o pedido da troca, consegui, e decidi ir de mota.
Curiosamente uma das situações em que as ideias me surgem e as dúvidas também me assolam é quando estou a andar de Mota.
Durante o almoço isso disse ao meu Comandante de pelotão, Alferes António Sousa.
Acontece-me por vezes pensar em parar, rascunhar num papel o que me ataca porque a memória já não é o que era e tenho medo de ser traído por ela.
Com a quase certeza,  de viajar com tempo quente durante todo o fim de semana, as previsões meteorológicas também falham, fiz-me à estrada com o equipamento básico a pensar apenas em segurança, descurando algum conforto pelo excesso de calor.
Montado na minha Mota, dei comigo a pensar numas palavras ditas pelo Papa Francisco:
“Quanto é difícil, no nosso tempo, tomar decisões definitivas. O provisório está a prolongar a adolescência quase por toda a vida.”
Vêm-me à memória os planos e os sonhos da minha mocidade, os projectos pós-idade da reforma agora prolongada, os jovens de hoje eternamente à porta de uma oportunidade que teima em não aparecer.
À memória me vêm o que ouvia em jovem: “Ouve os mais velhos, que são os mais sábios”
Agora dizem-me para escutar os mais jovens, porque são mais inteligentes.
Fico sempre perplexo, quando leio ou ouço jovens executivos que aconselham receitas simples e práticas para qualquer um ficar rico, eles que dominam as folhas de excel mas não conhecem a tabuada. Aprendi, aprendo muita coisa.
Aprendi, por exemplo, que se nos últimos 35 anos tivesse deixado de beber um café e um whiskinho por dia tinha economizado X verba, se tivesse deixado de comer uns bifalhões por mês, mais uma economia de X verba, e assim por diante.
Castiço, como ainda há pouco tempo a saborear uma catembe com o meu Amigo Fragoso, o pai dos Putos, abordei o assunto do desperdício do dinheiro que ganhei. Muito dinheiro.
Almoçaradas, jantaradas, noitadas, viagens, gajas, carros, motas, roupas, muita coisa supérflua e descartável.
Impressionado duvidou do valor esbanjado e da minha seriedade.
Muni-me de tudo o que achei necessário à minha defesa, peguei num lápis e papel à moda antiga,  comecei a fazer contas, descobri para minha surpresa que o desperdício tinha sido superior ao que lhe tinha dito e que hoje poderia estar milionário.
Poderia ter uma conta bancária avultadamente recheada.
Não, não tenho.
Mas, se tivesse, o que é que este dinheiro me permitiria fazer?
Tudo o que fiz.
Almoçaradas, jantaradas, noitadas, viagens, gajas, carros, motas, roupas, muita coisa supérflua e descartável.
Gastei o meu dinheiro com prazer e por prazer, porque hoje, passado mais de meio século de vida, não tenho mais o mesmo pique de vida nem a mesma saúde.
Faltam-me peças, tenho peças remendadas e outras danificadas.
Abusar com a mesma intensidade não faz bem à minha idade, vestir bem, não melhora muito o meu visual.
Jamais conseguiria fazer agora o que fiz em jovem.
Por isso acho que me sinto feliz em ser pobre.
Por isso recomendo aos jovens e brilhantes executivos que façam, se puderem, o que eu fiz.
Por isso e antes que tudo piore, resolvi com esforço que ainda suporto, estar com os meus companheiros “Panterinhas” em Matosinhos naquele fenomenal almoço organizado pelo Matos com a ajuda do Gonçalves e do Pinheiro.
Pinheiro que ganhou com distinção ao final da noite a atribuição da camisola “Amarela da buba”.
Em nome de todos os jovens "Panterinhas" um Obrigado pelas vossas ofertadas lembranças.
Elevaram demasiado a fasquia.
Parabéns aos três.
Neste modesto blogue quero deixar o registo de um sincero Bem Haja, gosto desta interjeição tão sentidamente usada na minha Penamacor natal para expressar agradecimento ou gratidão, à venerandíssima esposa do Matos, Veneranda Martins, por duas razões:
Pela minha hospedagem, e pelo ternurento e lindo acto de ter recebido as esposas dos companheiros "Panterinhas" com uma bonita e vistosa rosa vermelha.
Como irá ser o próximo encontro dos "Panterinhas" em Santarém?
Até lá novo esforço e nova troca de serviço me espera para estar presente no almoço convívio dos Antigos Alunos do Externato de Nossa Senhora do Incenso, em Agosto na Mui Nobre Vila de Penamacor.
Mas antes, ainda me espera Faro, a catedral do Motociclismo.
Vou sem hesitação, sem olhar a custos, sem o medo de um dia me arrepender de ter faltado.
Não quero chegar a velho sem ter vivido a vida, não quero morrer com um montão de dinheiro na minha conta bancária, muito menos desejo na minha laje sepulcral, o apodo:
“Aqui jaz o gajo mais rico do cemitério”
Não vivo para ser rico, vivo para ser minimamente feliz.
Zé Morgas

domingo, 9 de junho de 2013

Hino à Mota


O tempo passa, sereno, profundo e sem idade.
A vida esmorece, mas algo existe e nada se esquece.
Para além do tempo, para além da vida, fica sempre a amizade.
Encontrei há dias, circulava eu pela marginal na minha Mota junto ao mar em Sines, a sair do Docas bar, um Amigo que há muito tempo não via, o Andorinha.
Com ele estava o Carlos, outro duro de outrora, que igualmente há muito não via também.
Parei para com eles conversar.
No pouco tempo que ali estivemos trouxemos à memória os belos passeios de Mota que fizemos juntos, os alegres momentos bem passados, as festas vividas no “Texas” e uns pequenos versos, três versos apenas,
Podes ficar com as jóias, o carro, a casa
E o nosso Filho
Mas não fiques com a Mota
cantados "estilosamente" com empurrão do néctar de Baco ou de cevada germinada, plagiados do refrão de uma canção popular da romantica cantora Ágata.
Combinamos ali no Docas fazer em breve uma festa à antiga, e sem saber a verdadeira razão, dei por mim a ouvir a tal canção da Ágata, e resolvi, passe o plágio, escrever o “Hino à Mota” para cantarolarmos futuramente nos nossos sempre animados convívios.

Artista: Ágata / Versão Zé Morgas
Música: Comunhão de Bens / Hino à Mota
Letra:
Vai-te embora Mulher,
Podes levar o que pertence a ti
Vai-te embora Mulher,
Podes levar o que pertence a mim
Vai-te embora Mulher,
Leva contigo o que te apetecer
Vai-te embora Mulher,
Mas deixa a minha razão de viver
Não me leves a coisa mais querida
Que nos pertence em partes iguais
A Mota por que tanto lutei e sofri.

Refrão

Podes ficar com as jóias, o carro, a casa
E o nosso Filho
Mas não fiques com a Mota.
E até as contas do banco, e a casa de campo,
Mas não fiques com a Mota.
Podes ficar com o resto e dizer que eu não presto,
Mas não fiques com a Mota.
Tira-me tudo na vida, e o mais que consigas,
Mas não fiques com a Mota.

Vai-te embora Mulher,
Podes levar daqui tudo o que houver
Vai-te embora Mulher
Eu nem partilhas vou querer fazer
Vai-te embora Mulher,
Leva o que tinhas e o que hoje tens
Vai-te embora Mulher,
Até prescindo a comunhão de bens

Mas não leves essa coisa mais querida
Que é dos dois
Não posso negar
Mas fui eu quem lhe deu mais uso na vida
E é comigo que ela quer rolar e ficar.
Saio, saio de casa apenas
Com o que na Mota puder transportar

Refrão (3x)

Podes ficar com as jóias, o carro, a casa
E o nosso Filho
Mas não fiques com a Mota.
E até as contas do banco, e a casa de campo,
Mas não fiques com a Mota.
Podes ficar com o resto e dizer que eu não presto,
Mas não fiques com a Mota.
Tira-me tudo na vida, e o mais que consigas,
Mas não fiques com a Mota.

O verso “Mas não fiques com a Mota” terá impreterivelmente de ser cantado com a voz o mais sofrida e amargurada possível.
Homem sofre pela sua Mota!
Boas Curvas
Zé Morgas